A visita de Sarte ao Brasil

A filosofia existencialista de Sartre e Beauvoir no Brasil influenciou a década de 1960 e seus acadêmicos que em seguida guiariam parte do pensamento filosófico brasileiro

Por Silvia Soler Bianchi e Pedro Bracciali Filho** | Foto: Moshe Milner | Adaptação web Caroline Svitras

Ao visitar o Brasil, Sartre encontrava-se no auge de sua atuação como crítico da sociedade capitalista e influente ativista político engajado. No cenário mundial destacava-se o clima da guerra fria, ameaçando um conflito devastador pelo uso do arsenal atômico. O Brasil e os demais países sul-americanos estavam no interesse das disputas expansionistas, do comunismo suportado pela Rússia de um lado, e pelo capitalismo defendido pelos norte-americanos. A ilha de Cuba, por um movimento revolucionário articulado pela guerrilha, estava para se tornar território comunista, tornando eminente o risco desse regime instalar-se nos países latino-americanos. Sartre e Simone de Beauvoir permaneceram no Brasil por um longo período de dois meses e meio, viajando por diversas cidades brasileiras. Destaca-se como uma das mais importante, a vista que fizeram à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, onde ele proferiu uma conferência dedicada à filosofia. Esse acontecimento resultou numa data memorável para a instituição, para cidade do interior paulista e um dos eventos mais importantes da passagem do casal pelo Brasil..

 

A visita de Sartre ao Brasil teve como pretexto sua participação no I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, em Recife, a convite de Jorge Amado, porém o que se discute leva para outras razões, como a de escapar das pressões políticas adversas que o casal sofria em seu país, devido à oposição ao colonialismo francês na Argélia. Entretanto, sempre que concedia entrevista, sua fala era interpelada por questões acerca da revolução cubana o que torna esse o grande destaque de sua presença em território nacional. Ele mesmo se via num redemoinho, tendo que comparecer a todo lugar e a toda hora falar sobre esse assunto. Suas conferências eram permeadas pelos temas “colonialismo” – referindo-se à Argélia – e “imperialismo”, reportando-se à revolução de Cuba, onde estivera antes de vir ao Brasil, meses antes, a convite de Fidel Castro.

 

Simone de Beauvoir (1908-1986), enquanto esteve no Brasil, representou a mais importante personalidade do movimento feminista. Seu pensamento a respeito de gênero desenvolve-se a partir da condição da mulher e suas ideias têm influência do existencialismo de Sartre. Sua estadia em diversas regiões no Brasil resultou num precioso diário em que a escritora registrou suas impressões sobre as cidades brasileiras, os costumes, as misérias e os preconceitos contra a mulher. Esses relatos fazem parte do livro “Sob o signo da história” (primeira edição em português de 1965 do original La Force des Choses). É interessante observar particularidades registradas sobre a viagem do casal, como o incidente no pouso da aeronave, em que Beauvoir (1965, p. 240) escreve: “‘Eles não estão conseguindo fazer descer o trem de aterrissagem’, disse-me Sartre. Pensei: ‘Conseguirão’. Nada de mal (sic) podia acontecer àquela hora, sob aquele céu, no limiar de um continente novo” Ao cabo de meia hora, as rodas apareceram e o avião pousou: ambulâncias e carros de bombeiros amontoavam-se no aeroporto.

Análise desnuda do feminismo

 

Ruth Cardoso (BRANDÃO, 2010) reporta o alvoroço que foi o evento para a cidade. “A Igreja combateu veemente a presença de ‘comunistas e existencialistas”; por outro lado a União Estadual dos Estudantes – UEE, mobilizou-se organizando caravanas a partir das cidades vizinhas. A conferência de Sartre, proferida em 4 de setembro de 1960, um domingo, tornou famosa a cidade de Araraquara.

 

 

A Questão Proposta Por Castilho
Jean-Paul Sartre

Às 18:15 horas, quando a palestra teve início, Castilho tomando a palavra, retomou em público a pergunta formulada a Sartre, originalmente, em francês, na tradução conforme apresentada pelo jornal O Estado de S. Paulo de 6/9/1960:

 

Desde 1943, conhecíamos os termos com os quais definis um filósofo e as relações que ele tinha, na história, com sua obra – já que a história é o limite intransponível tanto para o subjetivo quanto para o objetivo. Entretanto, desde a Question de la méthode e depois da Critique de la raison dialectique renunciais formalmente ao título de filósofo. Em que sentido poder-se-ia dizer que vossa posição atual implica uma nova concepção das relações entre o subjetivo e o objetivo? Em suma, como se poderia ser um ideólogo neste momento, sem cair nas dificuldades assinaladas por Marx a propósito da ideologia – isto é, como se pode ultrapassar a Filosofia sem realizá-la?

 

Sartre iniciou a palestra pelas questões finais da pergunta. Para ele, a ideia de realização da filosofia – ou seja, tornar-se prática – é uma noção marxista. É a partir do século XIX que a filosofia torna-se prática para uma ação sobre o mundo. Não que a filosofia fosse apenas contemplativa. Não há, nunca houve filosofia puramente contemplativa que não exprima uma dada política. Marx foi o primeiro a ter consciência desse fato ao realizar sua revolução filosófica. Esse conhecimento, essa noção de realização da filosofia, faz do filósofo um homem que deve comprometer-se, pois se a filosofia é pratica, ela representa um encaminhamento da ação e uma transformação do homem – o que a filosofia diz tem que se tornar o que é. Ela faz ao mesmo tempo em que diz.

 

Beauvoir dedica a segunda parte de seu livro, O segundo sexo, a observar a questão da mulher na História

A filosofia pode ainda desvelar-se como prática e, progressivamente, tornar-se mundo de uma filosofia, mas essa ideia é mais hegeliana e idealista. Marx nada mais considera além de contradições e rupturas e não toma em consideração a filosofia como realização progressiva. Sartre prefere pensar, antes, que o que há são filosofias; filosofias que surgem em certos momentos essências da história, aqueles em que a classe em ascensão descobre-se e tem posse dos instrumentos do conhecimento. Assim, a filosofia de Descartes que é racionalista e analítica, expressa a razão fundamental da burguesia da sua época. Essa filosofia como verdadeira dessa época, somente pode ser ultrapassada pela filosofia de Kant e Hegel, que, por sua vez corresponde a novas condições históricas. A filosofia que corresponde à situação atual, no momento em que se observa a crise do capitalismo, é a filosofia de Marx. Ela hoje é insuperável, pois permanece o fato da exploração e, mesmo que o operário seja menos miserável, ele continua sendo produto do seu produto, exigindo uma filosofia de alienação. Toda filosofia que não parte do homem total é uma filosofia retrógrada, por isso, no momento presente, não pode haver filósofos.

 

Aos cinquenta e cinco anos na época em que esteve no Brasil, Sartre havia publicado duas grandes obras de filosofia, O ser e o nada, de 1943, caracterizada por conceitos ontológicos que deu origem ao que se chamou de Existencialismo, e Crítica da Razão dialética, de 1960, obra que ele desenvolveu tendo em conta uma aproximação com o marxismo. A comparação entre essas duas obras fez com que seus críticos anotassem direções diferentes no seu pensamento, fases distintas da sua filosofia, ao escrever uma e a outra obra. A diferença entre essas duas fases está na forma como Sartre trata o que é fundamental em seu pensamento: o conceito de liberdade. Em O ser e o nada, Sartre fala de liberdade no âmbito do sujeito e sob um caráter idealista, sem expandir-se sobre o paradoxo da liberdade que ele mesmo entreve: “não há liberdade a não ser em situação, e não há situação a não ser pela liberdade. ” (SARTRE, 2007, p. 602). Colocada em cena a “situação”, Sartre passará a ocupar-se com a interpretação dos acontecimentos, estabelecendo um diálogo com o marxismo cujos resultados foram publicados na obra Crítica da Razão Dialética (SARTRE, 2002).

Repensando os muros existenciais

 

Em resposta, Sartre discursou que a direção continua a mesma. Em “O ser e o nada”, ele pretendia, apreendendo-se ao nível da consciência, fazer uma descrição da realidade humana como projeto, compreensão. Mas, se é bom – para estudar a consciência – dá-las sob uma forma abstrata, não é assim que cabe, reintroduzidas numa Antropologia. É preciso que se mostre como um homem inteiramente alienado, que reencontra o trabalho como força inimiga, é apesar disso, livre para nada – livre pelo fato de que é por sua própria ação que se aliena. É no que há de melhor em sua liberdade que ele está alienado: no seu trabalho. (SARTRE, 2005)

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 126

*Silvia Soler Bianchi é doutora em Educação, Arte e História da Cultura, mestre em Educação, Administração e Comunicação. Especialista em Psicopedagogia e em Ciências Humanas, Letras e História. Atualmente é coordenadora dos cursos de História e Pedagogia na Anhanguera.

**Pedro Bracciali Filho é mestrando em Educação, graduado em Filosofia e em Administração, com especialização em em Psicologia Transpessoal.

Adaptado do texto “Ideias em movimento”