A visão de Marx sobre o trabalho

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Em 1973 iniciei meu curso de graduação em Filosofia na USP. A ditadura militar estava no seu apogeu. Muitos professores tinham sido cassados, outros aposentados compulsoriamente e havia também aqueles que se autoexilaram com receio de serem presos e torturados.

 

Todos desconfiavam de todos. Qualquer um poderia ser um informante disfarçado. As palavras “marxismo”, “comunismo” e “esquerda” eram evitadas e tinham se tornado um tabu. Havia o receio de que o departamento pudesse ser fechado pelas forças da repressão.

 

Quando iniciei meu segundo ano, matriculei-me em um curso sobre Marx. Estava muito ansioso para abordar sua obra de forma mais sistemática e não apenas por meio de bochichos nos corredores. O programa do curso incluía a leitura das Contribuições à crítica da economia política (1859) e os capítulos I e VII do Capital (1867).

 

As revoluções do capitalismo

 

O capítulo VII foi o que me impressionou mais e, hoje em dia, relendo-o, enxergo nele elementos para reconstruir, na obra de Marx, uma Filosofia da Tecnologia.

 

Nesse capítulo VII, Marx afirma que “uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador”.

 

Penso que nessas poucas sentenças, citadas inúmeras vezes pelos estudiosos de sua obra, Marx resume sua Filosofia da Tecnologia. Uma teia de aranha é uma obra de arte, mas ela não pode ser considerada trabalho por faltar a ela uma direcionalidade, típica do ser humano, que projeta uma referência virtual, um objeto que ainda não existe e que precisa ser atingido ao final de um processo por meio de operações manuais ou mentais. O trabalho é ação mediada pela consciência. Os homens trabalham, os animais (e as máquinas) apenas executam ações. O ser humano é o ser consciente que, por isso, pode sempre escolher outras finalidades para as ações que compõem seu trabalho.

 

Duas grandes ideias de Marx

 

Creio que essa passagem de Marx é reveladora não apenas de uma Filosofia da Tecnologia como, também, de uma Filosofia da Mente e de uma Antropologia. Ao interpretá-la com o olhar de nossa época é possível perceber o quanto nela está embutida a ideia da consciência definida como intencionalidade, de um pre-tender ou a referência virtual que se concretiza por meio do trabalho. A tecnologia é o caminho para estendermos nossa mente pelo ambiente que nos circunda, modificando-o para que ele se adapte ao homem. O ser que usa representações conscientes para direcionar seu trabalho é o homem. Essa é a Antropologia que serve de fundo para o pensamento de Marx. Hoje em dia, essa já não é mais apenas a tarefa do artesão ou do operário industrial que produz somente um objeto. O trabalho mental estendeu nossa mente sobre o ambiente mais do que em qualquer época do passado.

 

Consciência é liberdade. Por isso, trabalho e liberdade estão naturalmente associados na Antropologia de Marx. Mas perdemos a livre escolha dessa referência virtual, desse objeto projetado como resultado da ação humana sobre o ambiente. O trabalhador industrial se tornou um autômato e a esperança de que a tecnologia pudesse libertá-lo de ações repetitivas não se concretizou. A planificação do trabalho e da produção, em sociedades capitalistas e socialistas, levou à perda desse vínculo essencial entre ser humano e trabalho. A economia, cuja função principal é sustentar a vida humana, se voltou contra nós. Nas sociedades contemporâneas, a economia está desvinculada da vida humana, produzindo uma inversão cujas consequências são desastrosas. Até nas sociedades privilegiadas pela abundância há um mal-estar civilizatório intangível, indefinível. A dissociação entre vida, trabalho e economia tem uma consequência ainda mais nociva: a perda da responsabilidade ambiental em relação a recursos naturais irrecuperáveis.

 

 

O marxismo produziu o revolucionismo, o culto do Estado, o culto do operário e, mais recentemente, o reformismo e o assistencialismo. O socialismo deixou de ser um projeto e se transformou em uma espécie de princípio ético vago de uma religião laica internacional. As tentativas de impor mais unidade sobre as sociedades do que seus membros podem aceitar têm produzido tragédias econômicas e sociais. O discurso em favor da igualdade ataca, de forma intolerante, as diferenças individuais ao mesmo tempo em que proclama os direitos das minorias. Mas é esse mesmo discurso que recobre o aumento exponencial das desigualdades econômicas nacionais e internacionais.

 

O trabalho está nos tornando menos humanos, gerando uma antropologia às avessas. Isso me faz lembrar um poema de João Cabral, no qual ele afirmava que para os boias-frias, a cana colhida se transformava em um feixe de ossos. Não é por acaso que, hoje em dia, antropomorfizamos a descrição das máquinas, dos animais e de suas sociedades, mas nos descrevemos apenas como organismos, isto é, sem utilizar um vocabulário antropológico.

 

Talvez minha leitura de Marx seja a de um romântico. Ouvir isso não me surpreenderia. O Romantismo contamina o pensamento alemão desde o século XIX. Com exceção, talvez, de Nietzsche, que em seu livro A vontade de potência escreveu: “Basta: está chegando a hora em que a política terá um significado diferente”.

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org

Adaptado do texto “A aranha de Marx”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 112