A viagem suicida pós-moderna

Karl Marx, Weber e a enorme dificuldade de sentir e representar o mundo contemporâneo, em que a sensação vigente é a de irrealidade, de vazio e de confusão

Por Matêus Ramos Cardoso* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O teólogo Henri Nouwen (1932-1996), inspirado na “espiritualidade do deserto”, valoriza o silêncio, a oração, o encontro com Deus e a busca de uma vida simples. Segundo ele, “nosso mundo se aventurou em uma viagem suicida”. Seria possível pronunciar uma palavra de esperança diante do turbilhão de agonias inerentes a uma sociedade onde impera a tirania da velocidade? Diante de uma realidade extremamente veloz que se renova a cada instante, alguns acabam se adaptando e vivem como zumbis, mortos-vivos numa sociedade que parece caminhar para o abismo, como numa grande marcha lenta, um congestionamento humano que se dirige para seu próprio velório.

 

O modo de vida hodierno é caracterizado pela constante necessidade de produção, que cresce a cada instante. Dessa perspectiva, os indivíduos, em meio a um estilo de vida exigente, perdem, entre tantas coisas, a saúde. O hiperconsumismo, atual procedimento padrão do homem contemporâneo, tem um preço muito alto; vive-se constantemente sob uma enorme pressão para que esse estilo de vida seja mantido, o que acarreta, por um lado, no aumento das exigências e, por outro, na redução das satisfações. Passos apressados que beiram o desespero. A máxima cartesiana é substituída pela máxima contemporânea: “Produzo, logo existo!”

 

Assistimos a uma contemporaneidade veloz, onde todas as atividades são atropeladas pela extrema rapidez em tentar solucionar os problemas. Vivemos entre as urgências dos milésimos. Não há recreio para a humanidade, não há intervalos, e toda a pausa para um suspiro que nos permita viver livre por alguns minutos parece colocar nossa existência em um curto-circuito. Parar é blasfemar contra o modus operandi atual. “O empreendedor é o agente do processo de destruição criativa. É o impulso fundamental que aciona e mantém em marcha o motor capitalista, constantemente criando novos produtos, novos mercados e, implacavelmente, sobrepondo-se aos antigos métodos menos eficientes e mais caros.” Afinal, para qual direção caminha o avanço tecnológico? Parece que a humanidade corre como um motociclista quando viaja utilizando o vácuo de um caminhão numa autoestrada. Mas, não se da conta dos riscos, ou finge não saber. Como disse Joseph Schumpeter (1883-1950), viajamos “sob o vento perene da destruição criativa”.

 

Para podermos refletir com mais clareza acerca da rapidez tecnológica, que se estende para a subjetividade do ser humano, analisamos a argumentação do doutor em comunicação Dênis de Moraes: “Até 2005, Motorola, Nokia, Samsung e LG conseguiam colocar nas mãos dos clientes um modelo novo de celular a cada dezoito meses. Tal prazo agora é considerado uma eternidade. A média caiu para nove meses. Em alguns casos, o lançamento demora seis”. Desse modo, podemos ter uma ideia de como a cultura tecnológica acaba se incorporando ao comportamento humano, o amor se torna um prazer automático e acabamos robotizando nossas vidas. E a grande questão não é se surgirão computadores com uma consciência humana, mas se nós já não estamos vivendo como máquinas, apenas executando funções rapidamente, de forma eficaz e não refletida.

“Ao mesmo tempo em que amplia as nossas capacidades de conhecer, imaginar e interagir, o delírio tecnológico não desfaz desigualdades socioeconômicas, repõe tensões sociais e, não raro, se presta ao fim último de mercantilizar a vida.” Em tempos de aceleração incontrolável, quem não está conectado, quem não acompanha a velocidade frenética da contemporaneidade é excluído, deletado. “Quem não está conectado estará excluído de maneira cada vez mais intensa e variada. A brecha acirra os contrastes entre regiões, países e grupos sociais.”

 

Busca pelo equilíbrio

Contudo, seria ingênuo renegar os aspectos positivos dos avanços ­tecnológicos, pois não há apenas o lado sombrio na tecnologia. Mas, é necessário questionar essa euforia tecnológica, procurando um equilíbrio. A rapidez tecnológica pode gerar uma noção de que tempo necessita ser comprado e que nossas relações nada mais são do que transações comerciais. E, então, podemos perguntar: onde há espaço para ser humano, viver a humanidade? Afinal, computadores não admitem falhas. Influenciados pela rapidez tecnológica, podemos construir um “eu compulsivo”.

 

Para Nouwen, nossa sociedade é representada por uma rede perigosa, em que as relações estão carregadas de prepotência e manipulação, não sendo muito difícil ficar preso ou se perder nela. Examinemos, por um momento, nosso cotidiano. Geralmente, somos muito atarefados, reuniões para ir, visitas a fazer, compromissos, etc. É raro o momento em que não temos o que fazer, e quando este momento acontece, não conseguimos desfrutar do ócio, pois a culpa de “não estar produzindo nada” assola nosso ser. Vivemos, cada vez mais, de uma maneira compulsiva, pois já não temos a calma para parar e refletir sobre nossas ações, nossos projetos de vida. Simplesmente seguimos fazendo seja lá o que for, de maneira automática, como máquinas obedecendo a comandos: é preciso motivar as pessoas a produzirem, a obter dinheiro, e todos precisam estar contentes (ou acreditando que estão contentes).

 

Que sou eu? Sou aquele que é apreciado, elogiado. As redes sociais, quando utilizadas de maneira automática, irrefletida, podem contribuir para que haja uma crise na subjetividade dos sujeitos. A velocidade e a quantidade de likes acabam sendo um referencial determinante sobre o quão importantes, bem-sucedidos e populares os indivíduos são. Se conhecer muitas pessoas prova minha importância, farei os contatos necessários. Se possuir dinheiro significa ter liberdade, então irei em busca do meu direito de ser livre, mesmo que já o seja, comprando. Um “eu compulsivo” apenas mostra o medo oculto que temos de fracassar, e para evitá-lo, impulsivamente, passamos a existência juntando mais das mesmas coisas: mais amizades, mais dinheiro. Lutamos para ter tanto. Consumimos felicidade, devoramos alegria.

 

As revoluções do capitalismo

 

Na Pós-modernidade, o ser humano é visto como coisa. Como objeto a ser consumido, objeto a ser venerado, e adoece por não ser tratado como ser humano, mas como um ser fora de si, um “ser-coisa”, que busca a todo momento o ideal, mas foge do real. O Iluminismo foi um período em que se depositou grande confiança na razão para solucionar os problemas da humanidade. A razão, por sua vez, tem a técnica como maneira de agir. Contudo, esse otimismo cedeu lugar a um pessimismo, e “a própria razão técnica, longe de garantir um domínio cada vez maior sobre a natureza […], tinha perdido a capacidade de guiar com competência e responsabilidade o progresso histórico”. “Realmente, a alta afinidade entre racionalidade e irracionalidade é perturbadora. Tão perturbadora como ver primeiro uma foto de físicos e engenheiros de renome como Einstein, Bohr, Planck, Heisenberg, Braun, etc. e depois uma de Hiroshima em 1945. Tão perturbador e assustador como ver um vídeo de uma linha de montagem da Ford dos anos 1930 e um documentário sobre a fabricação de defuntos em Auschwitz.”

 

Tecnologias e destruição

A técnica mostra o seu lado sombrio especialmente no seu impacto ao meio ambiente, pois “o mundo se encontra hoje em uma disposição ao perigo que se expressa, mais claramente na ­ameaça nuclear, tanto na sua variável civil (uso da energia nuclear e produção de resíduos tóxicos) como militar (existência de ogivas nucleares na mão de diversos estados territoriais capazes de extinguir várias vezes qualquer vida na Terra”. Alguns dados podem nos ajudar a compreender como a tecnologia e seu rápido avanço tiveram um impacto negativo na contemporaneidade. Por exemplo, entre os elementos radioativos que são emitidos pelo combustível queimado nas usinas nucleares e os rejeitos dos lugares de recuperação atômica, podemos citar elementos como estrôncio-90, rutênio-106, iodo-129, iodo-131 e plutônio-239. Este último é extremamente tóxico e possui uma meia-vida de 24.390 anos (ou seja, mesmo depois de 24.390 anos, esse elemento ainda possuirá a metade de sua radioatividade atual). Assim, compreende-se o tamanho do risco que a utilização da tecnologia nuclear significa para nós, bem como para as gerações futuras. Temos, então, um risco ambiental somado ao risco social e individual, com resultados desconhecidos para cada possibilidade.

 

As consequências da utilização da técnica moderna são amplas e podem variar, ou seja, elas têm a possibilidade de ser vistas como positivas ou negativas, levando em consideração os inúmeros pensadores e as diversas teorias. Podemos dizer que a tecnologia é como uma faca de dois gumes, pode tanto fazer o bem como destruir. Nas palavras de Anthony Giddens, “estamos alcançando um período em que as consequências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas e universalizadas do que antes”.

 

O humano na idade da técnica

 

A crescente independência dos sistemas de ação racional regida meramente por fins é um dos sintomas da modernidade que Max Weber (1864-1920) atribui ao rompimento da unidade das imagens religiosas-metafísicas do mundo e, consequentemente, a impossibilidade de atribuir-lhes um sentido. Assim, a perda de sentido ocorre devido à gradual substituição da religião pela razão. Sendo que “tudo, em princípio absolutamente tudo, ‘sem resto’, diz Weber, pode ser cientificamente conhecido, e isso quer dizer: cientificamente explicado por nexos causais isolados e apenas parcialmente encadeados, jamais totalmente esgotados”.

 

O ser humano se liberta das forças impessoais e misteriosas que habitam o imaginário religioso, mas se torna escravo de sua própria criação, e este é outro sintoma típico da modernidade para Weber: a perda de liberdade. Segundo o pensador alemão, a mesma racionalização progressiva que libertou a humanidade das superstições, de Deus, tende a escravizá-la em rígidas estruturas institucionais. Tanto a perda de sentido como a perda de liberdade são vistas por Weber como patologias sociais da reprodução simbólica do mundo induzidas sistemicamente.

 

O capitalismo seria fruto desse rígido sistema mantido por uma racionalidade dos meios, uma vez que se deixou de lado a racionalidade dos fins, no qual se buscam os meios mais adequados para alcançar fins próprios. A herança desse percurso para nós, homens contemporâneos, é o aprisionamento voluntário, frenético e consumista. “Na opinião de Baxter, o cuidado com os bens exteriores devia pesar sobre os ombros de seu santo apenas ‘qual leve manto de que se pudesse despir a qualquer momento’. Quis o destino, porém, que o manto virasse uma rija crosta de aço. No que a ascese se pôs a transformar o mundo e a produzir no mundo os seis efeitos, os bens exteriores deste mundo ganharam poder crescente e por fim irresistível sobre os seres humanos como nunca antes na história. Hoje seu espírito – quem sabe definitivamente – safou-se desta crosta. O capitalismo vitorioso, em todo caso, desde quando se apoia em bases mecânicas, não precisa mais desse arrimo.”

 

 

O capitalismo parece querer asfaltar nossas incertezas, supondo que tudo está bem. Veja, cobrimos com toneladas de cimento nossas cidades na expectativa de que sejamos salvos e estejamos seguros. Cobrimos nossos muros com cercas elétricas buscando uma segurança num mundo que sempre será inseguro. Buscamos viver sob a ideia da certeza, mas esquecemos da dimensão da contingência.

 

A solidão

A solidão talvez seja a única maneira de sairmos dessa rede perigosa, de manipulação, de caos, pois ela é responsável por dar suporte para que o ser humano parta em busca de uma consciência crítica. Afinal, estar adaptado a uma sociedade doente não é um bom sinal.

 

Nessa perspectiva, a solidão não pode ser entendida como um simples afastamento, como recarregar as baterias, como ir ao canto do ringue para retomar o fôlego. De certa maneira, impera no inconsciente coletivo que a solidão é “como um lugar onde juntamos novas forças para continuar a constante competição da vida”. Muito pelo contrário, a solidão não pode ser vista como uma simples terapia, na qual fugimos, mas um lugar de conversão, propiciando a busca do próprio “eu”, a busca do sentido perdido na Idade Moderna.

 

Podemos visualizar uma reação aos problemas atuais na crítica marxista, que se caracteriza por ser sempre exterior: o problema são ou outros, o Estado, a Igreja, a escola, etc. No silêncio, somos levados a suportar o que realmente somos, e não sobreviver na expectativa do que os outros pensam de nós. A saída pode estar em trocar a substância da nossa individualidade, mecanizada e compulsiva, por uma pouco além de nossa humanidade. Para isso, é necessário transcender a imanência. Assim, “a solidão é um lugar da grande luta e do encontro – da luta contra as compulsões do falso eu e o encontro com o Deus zeloso que se oferece como substância da nova individualidade”.

 

 

Desse encontro resulta a retomada da satisfação pela simplicidade, elemento que falta a uma sociedade tão complexa. A simplicidade nos mostra que nada que é humano nos é estranho e nos ensina a olhar toda a experiência do fracasso como uma necessidade de se enxergar com mais leveza e atribuir menos punição aos nossos erros. A simplicidade é a morada das almas leves, ela pode amparar suas existências onde não há um a digladiar com o outro enquanto tentam alcançar o lugar mais alto do pódio, mas reverências, porque percebem a beleza que há no “não ter” e ser completado pelo pouco do outro. Aliás, este é um dos problemas de nosso tempo, o excesso. A simplicidade exige pouco para ser amada, geralmente pede um pouco de atenção, gentileza, delicadeza, enfim, de presença, porque quer se sentir “­existente”. Ela possui o dom de ter um amor sem retorno, no qual a compreensão e o amor mútuo geram admiração. E por isso se mostra como inimiga da modernidade. O conceito de simplicidade que abordo vai ao encontro do pensamento de João da Cruz: “tudo o que se faz por amor não cansa nem se cansa”.

 

Em uma cultura narcísica, gostamos de ser servidos e de ocuparmos os melhores lugares, buscando sempre sermos vistos e ovacionados pelos outros.

 

Sob esta guisa, o teólogo Libânio argumenta que a força integradora do sagrado permite que todas as realidades tenham, a partir dele, sentido, valor, consistência. Logo, afastar-se dele é submeter-se à anomia, à perda de sentido, ao caos.

 

Trata-se, nessas condições, de “desafiar o senso comum”, buscando conscientizar para os padrões de vida vigentes, como o consumismo, a desigualdade social, o trabalho em excesso e pouco satisfatório, na tentativa de defender uma maior qualidade das relações sociais, para que possamos construir uma sociedade laboriosa que seja também simultaneamente sóbria e existencialmente autônoma.

 

Entenda a estética da solidão

 

O indivíduo é muito mais do que um objeto, que compra e é comprado, que é tomado pelo sistema, que se dedica a um trabalho para “ganhar a vida”, que segue o caminho inverso da lógica da satisfação e da simplicidade.
Nessa viagem suicida pós-moderna, percebe-se que na grande maioria das vezes as pessoas sofrem demais com respostas “erradas” devido ao fato de que ainda não tiveram a coragem de olhar para dentro de si e fazer a pergunta certa: “Afinal, o que queremos da vida?”

 

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*Matêus Ramos Cardoso é bacharel em Filosofia. Pós-graduado em Ética e Filosofia pelo Instituto Pro Minas e em Ciências da Religião pela Universidade Cândido Mendes (RJ). É professor de Filosofia na E. E. M. Macário Borba, em Sombrio (SC). teus33@yahoo.com.br

Adaptado do texto “A viagem suicida pós-moderna”