Filosofia e ciência dos sonhos

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quando mencionamos a palavra “sonho” é difícil, hoje em dia, não a associar ao nome de Freud. Na sua obra magistral, A interpretação dos sonhos, publicada em 1900, Freud tentou criar uma ciência da nossa vida onírica. Para ele, o conteúdo dos sonhos não era um material indiferente, pois sonhar equivale a abrir momentaneamente um alçapão pelo qual o desejo reprimido tenta galgar acesso à consciência. Para se manifestar, o desejo precisa trapacear a rígida censura da consciência e, por isso, ele precisa sempre aparecer de uma forma disfarçada. Essa censura é tão poderosa que, apesar dos disfarces, ela quase sempre nos faz esquecer o que sonhamos alguns segundos após acordarmos.

 

A proposta freudiana de que uma ciência dos sonhos deva se basear na interpretação de seu conteúdo tem sido questionada pela Neurociência contemporânea. Para os neurocientistas, sustentar que os sonhos sejam expressão de desejos inconscientes e que eles desaparecem ao acordar devido a um mecanismo de censura é ignorar a base neuroquímica desse fenômeno. A “censura” decorre da redução de produção da noradrenalina durante o sono, um neurotransmissor cuja ausência inibe a criação de uma memória duradoura.

 

A Neurociência afirma que os sonhos ocorrem porque algumas partes do cérebro são ativadas e outras inibidas durante o sono. O sonho é uma alucinação envolta em uma emoção, quase sempre de ansiedade, de medo ou de alegria. Durante o sonho, a auto-consciência quase sempre é desligada, a atenção desaparece, e nós tornamos passivos diante das alucinações que nos acontecem. As bizarrices individuais que compõem o conteúdo dos sonhos pouco importam para a Neurociência contemporânea, que prioriza a compreensão da mecânica cerebral, a qual faz que os sonhos ocorram.

 

 

Mas que tipo de experiência subjetiva é um sonho? O que a distingue de outros tipos de lembranças? O que torna o sonho algo peculiar? Talvez a Neurociência tenha se apressado ao rejeitar inteiramente a teoria freudiana dos sonhos e não ter levado em conta sua noção de condensação, fundamental para compreender o fenômeno onírico.

 

A peculiaridade do sonho é ser uma alucinação temporalmente situada durante o período de sono.  Por podermos situá-lo no passado, e lembrarmo-nos dele após uma noite de sono, o sonho se transforma em uma lembrança, uma impressão menos vívida que recordamos na vigília. Nesse sentido, podemos definir a experiência do sonho como a lembrança de uma alucinação.

 

Contudo, há algo mais no sonho. Eventos sonhados que parecem levar dias ou horas podem tratar-se, na verdade, de poucos segundos de sonho. Relatar um sonho exige desdobrá-lo em vários episódios e, frequentemente, o relato parece durar muito mais do que o próprio sonho. A informação contida no sonho está condensada e quase sempre temos a impressão de que ele ocorreu em uma velocidade muito maior do que o próprio relato; como se um longo filme de aventura ocorresse em apenas alguns segundos.

 

Para Freud, a condensação é uma estratégia do inconsciente para burlar a censura. No sonho, imagens podem aparecer de forma sobreposta, fragmentária, ou uma longa história pode ser comprimida em apenas alguns segundos. A compressão de uma longa história em segundos provoca também a deformação do tempo que, encolhido, torna-se tempo subjetivo, que só o relato recoloca na ordem temporal da vigília, ou seja, na temporalidade objetiva.

 

 

Mas, se a deformidade temporal pode fazer que o tempo encolha, ele pode, ao contrário, se dilatar e causar a impressão de que seu fluxo é mais lento. Ao julgarmos, por vezes, que nossos sonhos são demorados, podemos ter a sensação de que eles se estendem por todo o período do sono, o que pode não ser correto. Contudo, nada pode nos garantir que o sonho não é uma alucinação instantânea que se dá na passagem entre sono e vigília, momento no qual ocorre, no cérebro, uma cascata de trocas químicas que poderiam produzir delírios tão fugazes que demorariam apenas segundos. Será que os sonhos duram a noite toda? Afinal, só lembramos dos sonhos quando acordamos!

 

Em outras palavras, estamos propondo que o sentimento de autoridade subjetiva não signifique um acesso privilegiado ao conhecimento da natureza da experiência subjetiva. Esse é um problema clássico da Filosofia da Mente, que implica, entre outras coisas, que a mente não seja transparente para ela mesma.

 

Se a falta de transparência da mente era uma das mensagens mais importantes de Freud, ele pode ter sucumbido ao próprio peso de suas afirmações. Pois, se o tempo dos sonhos é deformado pela condensação e não podemos confiar em nossas experiências subjetivas, o que garante que sejamos os autores de nossos sonhos? Certamente, o cérebro contém um número gigantesco de combinações possíveis e, por isso, há uma grande probabilidade de que algumas sequências aleatórias pareçam ser sequências com sentido, o que pode nos fazer cair na armadilha de que alguém as escreveu. Com isso, toda teoria do sonho como desejo, da censura e dos disfarces cairia por terra…

 

Reconhecer a deformação da temporalidade no sonho pode levar ao raciocínio mórbido explorado pelo cineasta Richard Linklater no seu filme Waking Life (2001). Entre a perda da consciência na morte e  a parada da atividade cerebral, decorrem alguns segundos nos quais pode ocorrer um pesadelo que parece durar séculos. Quem desejaria uma vida após a morte desse tipo?

 

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

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Adaptado do texto “Dormir, sonhar, morrer”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 90