A sociedade dos zumbis

O smartphone, o crack e os zumbis: novas configurações das relações humanas e sociais

Por André Roberto Ribeiro Torres* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A obra Celular, escrita por Stephen King foi publicada em 2006. Nesse livro, já adaptado para filme em 2016, a “zumbificação” das pessoas se dá por meio da proximidade do celular. Aqueles que se encontravam mais próximos e principalmente usando o aparelho no momento da contaminação, sofreram mais sequelas. No Brasil, o título do filme foi traduzido como Conexão Mortal, roteiro de Stephen King e Adam Alleca, direção de Tod Williams, com John Cusack, Samuel L. Jackson e outros.

 

Observamos no dia a dia que é muito difícil encontrar alguém que não esteja encarando a tela de um celular. Mensagens, redes sociais, jogos, lembretes… Tudo está lá. Mais real e acessível que o mundo em sua volta. O mundo em sua volta, aliás, pode se tornar um empecilho, algo que não é tão acessível e prático como o mundo mediado por meio de sistema operacional. Por isso mesmo é tão comum que pessoas que estejam lado a lado com seus aparelhos estejam também interagindo fazendo uso de aplicativos, enriquecendo com cores, sons e acontecimentos novos o ambiente concreto que se mantém analógico e tedioso.

 

Em breve, é possível que esse enriquecimento promovido pelos smartphones esteja ainda mais integrado à realidade circundante. Alguns desenvolvedores já pesquisam e oferecem óculos, relógios, roupas e acessórios, garantindo que a pessoa esteja sempre conectada. Acreditem ou não, até órgãos sexuais sintéticos podem ser integrados a todo esse funcionamento virtual das relações à distância.

 

Esses recursos integram os dois âmbitos de realidade, colocando no mundo concreto hologramas, redes sociais, jogos e outros aplicativos que “complementam” o mundo. Talvez isso diminua o número de acidentes, pois os aplicativos poderão trazer a realidade circundante para o mundo virtual, que é onde o sujeito psicologicamente se localiza naquele momento.

 

Sobre os zumbis do crack, sua realidade se mostra um tanto mais cruel. A participação de uma química externa (assim como no caso dos zumbis haitianos) no processo de “zumbificação” provoca a presença de sequelas físicas, psicológicas e sociais que estimulam a escravização da busca de mais substância.

 

Como há uma procura cega e não deliberada de manutenção desse funcionamento psicológico sob efeito da droga, é comum que a pessoa entre num processo de decadência degradante que desfaz sua saúde, seu emprego, sua família, seus amigos, seus bens materiais, sua paz… tudo.

 

Vários lugares do mundo assistiram ao nascimento e propagação de cracolândias, onde o acesso, uso e abuso dessa substância por várias pessoas gera uma multidão de zumbis que se utilizam de diversas estratégias para conseguir mais dinheiro para o crack. Todos conhecem as estórias falseadas: a família que acabou de descer do ônibus o mês inteiro, o bebê que nasceu todos os dias da semana, o pai que enfartou no mesmo local quatro vezes, a filha que morreu três dias seguidos… As pessoas que utilizam essas estórias não sabem mais para quem já as contaram ou não. Tentam emocionar o interlocutor para conseguir mais recursos a serem rapidamente investidos. Seu mundo também está além da realidade que os circunda mas isso não provoca um complemento divertido e interessante.

 

A semelhança com a metáfora dos zumbis é tão pertinente que alguns apresentadores sensacionalistas de TV já fizeram uso desse termo para designar essas pessoas que definham nas ruas dos grandes polos urbanos.

 

Esse acontecimento, no meu ponto-de-vista, serve de alerta para um grande perigo social que, ao identificar o zumbi como o monstro da nossa época, “cole” nos dependentes de crack a carcaça dos personagens mortos-vivos. Essa é uma espécie de uso político da figura do zumbi que provoca e acelera a desumanização das pessoas que chegam a esse estado de miséria em sua vida, justificando qualquer violência que ocorra contra eles. Afinal de contas, praticamente todas as produções literárias e cinematográficas sobre zumbis afirma que eles devem ser mortos sem qualquer piedade. A “jornada do herói” dessas produções envolve o processo de abandono da compaixão para aprender a matar sem pensar duas vezes aqueles que atingem esse estado.

 

Da mesma forma, a maneira como a maioria dos gestores lidam com as cracolândias é por meio da repressão policial, geralmente apoiada pelos cidadãos não dependentes de crack, que se sentem mais seguros distantes dessas pessoas.

 

O filósofo Giorgio Agambem, influente nos temas de urbanismo e relações humanas, trouxe ao nosso conhecimento o conceito de Homo Sacer (AGAMBEM, 2002). O homo sacer é uma pessoa que perde o seu status de cidadão e não precisa ser respeitado como tal. Na Roma Antiga, inclusive, aqueles que eram assim considerados podiam ser assassinados por qualquer um a qualquer momento com a garantia de que o assassino sairia impune, pois não há problema em matar um homo sacer. No entanto, esse sujeito não podia ser morto em rituais religiosos, visto que não era digno de ser oferecido à divindade.

 

Em algum momento, será que as pessoas que vivem uma destruição pessoal e social a ponto de pedir dinheiro na rua (pelo crack ou não) não são vistas dessa forma? Quantos mendigos já não foram espancados, queimados e até flechados como se isso não configurasse de fato um assassinato? A noção de homo sacer pode estar bem mais perto do que imaginamos.

 

Assim como os zumbis do crack ou do smartphone enxergam uma interpretação mediada nas relações, estaríamos nós também aprendendo a tomar determinadas interpretações como conceitos culturais mais “corretos” que a nossa forma própria e pessoal de perceber a realidade? Olhamos para as pessoas como dependentes de uma substância mas que trazem um histórico de vida, memórias, sentimentos ou olhamos a carcaça do zumbi que aprendemos a enxergar? Estaríamos nós sutilmente “zumbificados” e obedientes?

 

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*André Roberto Ribeiro Torres é licenciado em filosofia e psicologia; é psicoterapeuta existencial; mestre em Psicologia e professor da Faculdade Anhanguera de Campinas.

Adaptado do texto “Monstros do cotidiano”