A religião como desculpa para o mal

Por Rodrigo Petronio* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Para Girard, à medida que o desejo mimético produz, a escalada do mimetismo conduz a uma ambivalência entre violência e sacralização. Bataille analisa o jogo entre lei e violência a partir da economia da despesa, bem como da inscrição antropológica do sapiens na ordem humana por meio do erotismo, que conjuga lei e transgressão. Lacan espelhou Sade e Kant, como luz e contraluz de um mesmo imperativo privativo do desejo. Freud propõe um assassinato fundador na gênese da civilização, a partir do qual o inconsciente emerge e, com o consciente, o mecanismo expiatório de internalização da lei como culpa. Por todos os lados, lei e transgressão se tocam. O fascínio desse tema ocorre justamente por sua natureza paradoxal e paroxística, ou seja, pelo fato de estarmos diante de uma ambivalência estrutural que transcende o escopo estrito das religiões e mesmo da moral, e sinaliza aspectos ligados à gênese mesma da cultura humana.

 

A antinomia entre lei e desejo consiste em não poder haver desejo sem lei e, portanto, não haver realização do desejo sem algum nível de transgressão da mesma lei que gera o impulso desejante.

 

Os chamados valores secularizados do Ocidente são apenas um capítulo da universalização do mal em nome do bem. O Ocidente é o nome que os chamados ocidentais descobriram para poder matar e dormir em paz. A eterna querela entre Islã e Ocidente muitas vezes se reduz a um jogo de sinais trocados. Eles têm Deus. Os ocidentais têm o progresso. Vivem um do outro. Espelham-se.

 

O caso do brasileiro Marco Archer, condenado por tráfico de drogas, e o atentado ao jornal humorístico Charlie Hebdo são emblemáticos do mal-estar que esses impasses criados em torno das religiões ainda causam no início do terceiro milênio. Como equacionar esses elementos? Minha tese se apoia basicamente na revolução tecnológica como fator explicativo dessa situação.

 

O projeto do Esclarecimento e do racionalismo moderno acredita na possibilidade de solucionar essas antinomias interiores à dinâmica do desejo e da lei, de Deus e da transgressão das leis divinas. A solução oferecida pelo Esclarecimento seria por vias de uma inspeção racional dos fenômenos e por meio de uma superação dialética das contradições e antinomias internas ao ambivalente double bind [duplo vínculo] estabelecido entre essas unidades antropológicas siamesas.

 

Por que a técnica? Porque a técnica é um meio [meson] capaz de minimizar a distância entre o objeto e o desejo até o ponto de fundir desejo e objeto. A fusão entre desejo e objeto tem um nome: gozo. A conexão entre tecnologia e desejo torna-se cada vez mais clara nas sociedades hedonistas. Como outro da ciência, a técnica encarna o irracional que a ciência denegou.

 

Deus, lei e desejo

 

Com a modernização tecnológica, passamos a viver um novo desdobramento antropológico. Ele é marcado sobretudo por um desmembramento da santíssima trindade Deus, lei e transgressão. Em outras palavras, com a expansão planetária da técnica, cada vez mais Deus passa a se tornar um meson obsoleto para a realização do gozo e para a superação das antinomias entre lei e transgressão.

 

Contudo, justamente aqui reside a grande ilusão do Esclarecimento e dos projetos emancipacionistas modernos. Todos eles acreditam que a figura e a função de Deus, bem como as religiões, tornar-se-ão cada vez mais residuais, até um completo desaparecimento. É justamente esse modelo de progresso teleológico que demonstra a incapacidade das teorias emancipacionistas de compreender o mundo contemporâneo.

 

Por quê? Porque à medida que a técnica e a expansão dos modos de vida ocidentais promovem cada vez mais a realização do gozo sem precisar da mediação da figura de Deus, em termos mesológicos a tendência é cada vez mais a figura de Deus passar a ser concebida sob a forma de uma lei isenta de gozo, ou seja, como ressentimento daquele que não pode gozar e para o qual lei e gozo são inconciliáveis.

 

Nesse sentido, a expansão dos modelos hedonistas de vida ocidental terá como contraponto quase natural o fortalecimento de concepções de Deus cada vez mais divorciadas do sentido do gozo. E isso tende a se revelar não apenas no islamismo e tampouco será um fenômeno restrito às religiões. Trata-se do crescimento generalizado de fundamentalismos e legalismos religiosos, morais e políticos de diversos quadrantes e em todas as regiões do mundo.

 

Quando Deus deixa de ser o objeto transcendente de realização do gozo, uma parcela enorme da população não consegue mais fazer a passagem entre transgressão e lei. Divididos entre a anomia e a forma pura e fria de uma lei impassível de ser transgredida, para que Deus viva é preciso que todos os que realizam a unificação entre desejo e objeto sem recorrer ao meson divino sejam exterminados. Ou seja: todos aqueles que gozam, sem Deus ou de Deus.

 

Para os amigos, o gozo. Para os inimigos, Deus. Para que muitos possam ser livres, muitos mais precisam não o ser. Para a infelicidade das igrejas iluministas, esse recrudescimento dos fundamentalismos e das formas vazias da lei divina é um movimento mesológico inexorável. A não ser que vocês acreditem que o planeta inteiro pode se emancipar, rir de si mesmo e gozar junto, em uma divertida e divina suruba.

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 107
*Rodrigo Petronio é professor da  pós-graduação da FAAP. Organizador dos três volumes das Obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva (Editora É).  Coorganizador do livro Crença e evidência: aproximações e controvérsias entre Religião e teoria da evolução no pensamento contemporâneo (Unisinos).