A reintrodução de Deus na filosofia de Kant

Por Luiz Paulo Rouanet

A reintrodução de Deus na filosofia de Kant

Friedrich Nietzsche ironizou, com razão, o que parecia constituir um retrocesso na filosofia de Immanuel Kant. Este “expulsou Deus pela porta da frente para reintroduzi-lo pela porta dos fundos”. A “porta da frente”, naturalmente, foi a Crítica da razão pura (1781/1787), e a “porta dos fundos”, a Crítica da razão prática (1788).

Embora espirituosa, a frase de Nietzsche subestima o papel de Deus na filosofia de Kant. Mais do que mera reintrodução sub-reptícia, o que se vê, não só na Crítica da razão prática, como na Crítica do juízo (1792), é uma reentrada triunfal de Deus.

Esquece-se a utilidade positiva da Crítica da razão pura.Sua utilidade negativa consistiria em definir os limites de nosso conhecimento, pondo fim às especulações metafísicas que pretendem conhecer além do que é permitido pela experiência. Ela se propõe a responder à pergunta: o que posso conhecer? No entanto, a Crítica – desta vez a Crítica da razão prática – possibilita também pensar as condições da ação humana, em resposta à pergunta: o que devo fazer?

Mas há outra questão, que faz parte de nossa “metafísica natural”, e que é: o que nos é permitido esperar? Esta última pergunta, historicamente, recebeu menos atenção por parte dos intérpretes do que as duas primeiras. E somente ela é capaz de explicar a afirmação da Introdução à segunda edição da Crítica da razão pura: “Tive que suspender o saber para dar lugar à fé”.1

Esta tendência tem se modificado. Numa primeira onda de interpretação, Kant desejaria pôr fim a toda metafísica.2 Numa segunda onda, fala-se do “primado da razão prática”; é a tendência defendida pela chamada Escola de Mar burgo.3 Finalmente, assiste-se hoje a uma retomada da teodiceia e do pensamento metafísico de Kant desde o período pré-crítico até a maturidade.4

Semelhante interpretação já pode ser percebida em comentadores consagrados. Gérard Lebrun, por exemplo, afirma: “não é propriamente o sujeito moral que se anuncia através da Crítica do Juízo, mas o Autor moral do mundo (…)”.5 Não se trata, tanto, de uma moral filosófica, mas de uma teologia moral. “Atentemos, contudo, para o objetivo preciso perseguido por Kant ao fim da obra [Crítica do juízo]. Ele não pretende, de forma alguma, mostrar que a moralidade se anuncia na reflexão teleológica. O que lhe interessa é encontrar a articulação entre esta reflexão e a teologia moral, único pensamento de Deus (pensamento e 4 Cf. Bruno Cunha, “A gênese da ética de Kant: o desenvolvimento moral pré-crítico em sua relação com a teodiceia”. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: Pós-Graduação em Filoso a – UFMG, 2016. 5 Gérard Lebrun. Sobre Kant. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Iluminuras/Edusp, 1993, p. 106; grifos do autor). não conhecimento) lícito a um entendimento finito.”.6

Outro intérprete de peso, Eric Weil, relaciona a necessidade da crença em Deus e, portanto, do desenvolvimento de uma moralidade teológica, ou de uma teologia moral, à existência do mal radical da natureza humana. Assim: “Sem a admissão do mal radical, a vida moral se tornaria incompreensível. Atemporal, incognoscível, inapreensível em si mesmo, fato e ato antes de toda fato e ato, o mal radical é a condição de possibilidade de uma vida moral, e seu reconhecimento, a de uma apreensão da vida como vida moral”.7 É importante frisar que, do ponto de vista do conhecimento, Deus – assim como a liberdade, a imortalidade da alma e o caráter finito/infinito do mundo – é uma noção transcendente, ou seja, não pode ser objeto de conhecimento. No entanto, tem que ser pensada.

É a tarefa inescapável da razão pura. O que, agora, aparece como novidade, é que essa tarefa não pode ser executada unicamente com 6 Idem, p. 102 (grifos do autor). 7 Eric Weil. Problemas kantianos. Trad. Luiz P. Rouanet, São Paulo: É Realizações, 2012, p. 155. a ferramenta da razão, mas necessita da ajuda da fé – da fé racional. Em outros termos, não se pode pensar essas noções antinômicas – e é preciso pensá-las – sem o auxílio da crença. Isto é surpreendente.

Não se trata, porém, da antiga teodiceia, ou da antiga metafísica: há de fato, por parte de Kant, a intenção de substituir a ambas. A Crítica da razão serviu, sim, para estabelecer os limite do que podemos e não podemos conhecer. Mas, por outro lado, serviu para libertar o pensamento das amarras da empiria. A ciência deve se pautar pela experiência, mas a filosofia pode e deve ir além. Então, não está em jogo o fim da metafísica, ou o fim da filosofia,8 mas o fim da metafísica e da filosofia especulativas, a serem substituídas pela nova filosofia e pela nova metafísica, após o advento da crítica.9

Então, o debate volta a se abrir: pelo menos para Kant, Deus não está morto!

 

Luiz Paulo Rouanet é Professor Adjunto II da Universidade Federal de São João Del-Rei; Chefe do Departamento de Filosofia e Métodos da UFSJ.

1 KrV, B XXX
2 Cf. Gérard Lebrun. Kant e o  fim da metafísica. Trad. Carlos A. Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
3 Cf. Gehrard Krüger. Critique et morale chez Kant – Philosophie und moral in der kantischen Kritik. Paris: Beauchesne, 1961.
8 Cf. Yves, Michaud. Hume et la  n de la philosophie. Paris: P.U.F., 1983.
9 Cf. Diego K. Trevisan. Sentidos de metafísica na  loso a crítica de Kant. Studia Kantiana 17, dezembro 2014, p.
104-25, disponível em: http://www.sociedadekant.org/ studiakantiana/index.php/sk/article/view/182. Acesso em 01 jul 2016.

 

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 121