A psicanálise

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Amigos psicanalistas me disseram, em ocasiões diferentes, o que cada um deles considerava essencial na psicanálise. Vou citá-los em minhas palavras, que certamente serão diferentes das corretas na área deles – mas, como quero falar para a sociedade e não para a comunidade, peço que me desculpem se errar na linguagem do especialista.

 

Primeiro foi Renato Mezan, num congresso que organizei para homenagear Foucault, pouco após a morte do grande filósofo (os textos principais saíram em Recordar Foucault, Brasiliense). Foucault dizia que a psicanálise homogeneizava as formas de ver o mundo. Mezan contestou: Foucault ignora a transferência, que é o eixo da psicanálise.

 

É por meio dela que o analisando constrói o psicanalista como uma tela na qual projeta milhões de coisas – de modo que não se limita a falar de seus problemas a um suposto aliado, a um conselheiro, mas vivencia a fundo o que o atormenta. Ou seja, a psicanálise não é uma doutrina, uma visão do mundo, mas sua força está na relação do paciente com o analista. Em vez de construir uma interpretação pronta das coisas, a psicanálise é aberta: cada resultado de análise será diferente. Não é fechada, é criativa.

 

Depois, Ernildo Stein que, além de seu destaque em nossa filosofia, é também psicanalista. Uma vez ele assim me resumiu o efeito da psicanálise: ela é econômica, Renato. Ela economiza o gasto psíquico. Porque veja, quando você sente uma rejeição, uma frustração, às vezes ela te faz reviver muitas outras experiências negativas de sua vida, digamos com o pai, o professor, o patrão. A psicanálise faz que você libere a frustração atual dessa sobrecarga de toneladas de sofrimentos passados. Ela é econômica!

 

Qualquer um sabe que há situações em que tem mesmo que sofrer. A morte de um ente querido, a derrota numa eleição ou concurso, a rejeição amorosa, tudo isso traz sofrimento – e o problema seria não sofrer! Mas uma coisa é sofrer pelo que acontece agora, outra é pelo longevo passado. A psicanálise economiza este passado. Capacita melhor o sujeito a fazer o luto do presente. Ele se fortalece. Mal comparando, é como se Hamlet sofresse porque se sentiu traído pela mãe e não por causa do fantasma do pai.

 

Depois foi Jorge Forbes que me disse algo importante: que o “normal” é, numa conversa, num diálogo, não nos entendermos. O filósofo alemão J. Habermas bem pode se empenhar na construção do diálogo como base para a vida em sociedade (e ele deixa claro que isso não é nada fácil), o que a psicanálise retruca é que tal coisa é impossível. Cada um conversa ou convive a partir de seus referenciais. Entender o outro é necessário, mas não é possível. É claro que podemos nos aproximar do que ele diz, mas o que ouvimos se esquiva o tempo todo.

 

As consequências práticas do que diz Forbes talvez não sejam muito diferentes do que pretende Habermas. Nos dois casos, devemos nos empenhar para que o diálogo sobrevenha. Mas, na ação comunicativa, a perspectiva é mais otimista. Do viés da psicanálise, isso é mais difícil. Estamos derrotados de antemão. O que não deixa de apontar para um certo sentido trágico da vida. O homem, o ser vivo que foi mais longe – talvez – na comunicação, porque é o único a usar palavras, é ironicamente um incapaz de se comunicar. Ou, pelo menos, está condenado a tentar se comunicar, mas sem jamais o conseguir.

 

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Adaptado do texto “A psicanálise”

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). www.renatojanine.pro.br