A orientação das serpentes

Ana Maria Haddad faz crítica literária sobre o livro de Clóvis da Rolt, confira!

Por Ana Maria Haddad Batista* | Foto: Divulgação | Adaptação web Isis Fonseca

A orientação das serpentes

As classificações são sempre perigosas, arriscadas e, via de regra, injustas. No entanto, pode-se afirmar, com certa tranquilidade, que há textos, não importa o tal do gênero, que apenas tangenciam ‘intenções literárias’. Mas, há textos que podem, de fato, intensificar o que há de mais extraordinário em se tratando de literatura.

A orientação das serpentes, Clóvis Da Rolt, editora Modelo de Nuvem, é uma obra que se revela como reserva poética (como diria Yorgos Seferis). Uma voz que soa, ressoa e salta em todas as direções pela solidão irreparável dos pampas gaúchos.

Ao lermos os poemas sentimos, de saída, os ecos de um inconformismo frente a um mundo condenado. Dilacerado. Pleno de Narcisos e seus filhotes (sempre multiplicados).

Impossível, durante a leitura da obra, em seu conjunto de poemas, ficar indiferente ao espelhamento que se traduz entre o não verbal, o autor e as paisagens evocadas pelo poeta, como no seguinte fragmento:

O pampa exige iniciação e renúncia ./ São lentas as raízes,/ geométricos os ventos que badalam silêncios/ na retidão da espera. A aurora faz levitar o hermetismo dos cupinzeiros,/ nenhum foguete, nenhuma torre gótica,/ a paisagem é pura e não finda./ Descendo de um vale ancestral,/ sou demasiado oblíquo para entender/ a orientação das serpentes,/ falta-me a didática do voo rasante./ Da cópula entre o céu e a terra/ surge um traçado persistente,/ horizontal, cicatriz indelével/ na topografia do pampa.

Mas que fique bem claro: Clóvis Da Rolt não é um poeta regional. Atingiu, como poucos, a síntese de uma voz universal. Ou como diria Deleuze: conseguiu a rara espessura de um devir.

Nessa medida, o poeta ora é um devir-pampa, ora outros devires. Aquele que dá voz à natureza. Fala por ela sem sê-la. Transfere (por falta de uma palavra mais feliz) a linguagem, envolta em sua grande complexidade e meandros, a quem não pode se expressar pelo verbal. Eis um dos maiores desafios dos grandes escritores.

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*Ana Maria Haddad Batista é mestra e doutora em Comunicação e Semiótica. Pós-doutora em História da Ciência. Pesquisadora e professora da Universidade Nove de Julho.

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