A morte nos ensina a viver

A educação para o aprendizado da morte é uma proposta para uma nova mentalidade de vida em que o amor, a empatia e a responsabilidade se sobressaiam às precariedades em que o modo de vida capitalista coloca o ser humano

Por Poliana Murer Cavalcante Doi* | Fotos: 123RF | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

A forma social e cultural que organiza a vida dos seres humanos lhes permite o conhecimento sobre a sua própria finitude. Essa consciência é entendida como uma aptidão racional que diferencia os homens dos animais e os coloca sobrepostos aos instintos e sensibilidades que despertam nos outros animais o comportamento de defesa para sobreviver, ou de reserva para morrer. Todavia, saber-se mortal racionalmente não implica necessariamente que a sensibilidade instintiva sobre a proximidade da morte seja percebida pelo ser humano.

 

Com isso, é possível verificar que pela observação de certos comportamentos sociais diante da morte, ao longo da história da humanidade, essa sensibilidade instintiva sobre a proximidade da morte e o aprendizado racional sobre a própria finitude foi sendo perdido culturalmente.

 

Nesse sentido, não há como desconsiderar o sistema econômico para discutir o tabu da morte instaurado e incorporado na cultura da nossa sociedade. Esse modelo econômico nos impõe uma relação humana efêmera, que implica em relações passageiras, em descartes rápidos, em prazeres intensos e insaciáveis, em modelos existenciais que, em pequenas doses vão intensificando a desvalorização da vida e, consequentemente, o desprezo pela equidade em que a natureza nos coloca diante a morte. Portanto, é a existência do tabu da morte combinado a essas frivolidades impostas pelo sistema que nos impele a conceber uma “pedagogia da morte”, espécie de educação voltada para o aprendizado da nossa própria finitude e, consequentemente, da nossa própria vida. Nesse sentido, dois pontos se destacam: o conhecimento sobre a condição humana e o ideal de ser humano. A partir desses tópicos, é possível apresentar as concepções e relações entre diferentes correntes de pensamento.

 

 

Sobre a morte e o aprender a morrer

Ter conhecimento sobre a finitude, sobre o momento final e fatal, podendo se preparar para própria morte e organizar a vida alheia, aparentemente não é uma prática da sociedade contemporânea. Em primeiro lugar, hoje, o ser humano parece que não quer saber que vai morrer; e, segundo, julga que quanto menos atemorizar o moribundo com sua morte iminente, melhor. Nesse sentido, a transferência do moribundo ao hospital foi conveniente, na medida em que fortaleceu o tabu da morte, eximiu a todos de pensar sobre sua chegada e expandiu os lucros da indústria fúnebre. José Carlos Rodrigues afirma que “as doenças e os doentes” passaram a ser “vistos como perigosos na nossa sociedade e em muitas outras: porque são uma categoria intermediária, ambiguamente situada entre a condição de vida e a condição de morte”.

 

Por esse caminho, como numa linha de (des)montagem, transferimos os moribundos para outros setores, como o mercado fúnebre e a religião. Enquanto o mercado cuida dos bens do moribundo e transformam a morte em um negócio, as religiões tratam de manter a morte como um evento parcial em que o indivíduo perde sua matéria, mas guarda seu espírito, garantindo sua imortalidade e a imortalidade das próprias instituições espirituais. Esse cuidado com a consciência da morte, seja qual for a implicação religiosa para atendê-la, é uma construção social e cultural que instiga e incomoda os seres racionais desde o início dos tempos, porque propõe a negação à morte. Ainda segundo Rodrigues, “a apropriação da ideia de morte é, pois, função da interação do sujeito com os seus parceiros, com seu próprio eu, com sua cultura”, portanto, afastar os moribundos, é afastar a ideia da morte.

 

Afastar os moribundos de nossa convivência seria a tentativa de afastar a morte em nós

 

Mas essa cultura mercadológica e religiosa diante da morte nos afasta dos conhecimentos sobre a condição humana. Rodrigues também identifica esse comportamento como “ritual obsessivo de negação da morte”, ou seja, um desvio perverso de conhecimento de si mesmo e da própria condição humana. Defende também que esse saber é o “conhecimento de si” e justifica que a impossibilidade de conhecer a si mesmo está diretamente relacionada ao espetáculo da morte alheia, como se esta jamais nos encontrasse, num sentimento falseado de que somente os outros morrem.

 

Contudo, é nas sociedades capitalistas que a corrida para afastar a morte injeta no mercado consumista a ilusão da qualidade de vida que oferece a ideia da longevidade quase eterna. Neste viés, “cada vez menos vemos a morte como uma fatalidade e cada vez mais a vemos como uma probabilidade que tende a diminuir à medida que se controlam os fatos aleatórios: segundo essa concepção, se eu fizer ginástica, check-up rotineiro, observar as regras de segurança, etc. reduzirei minhas possibilidades de morrer, segundo as pistas que nos fornecem as civilizações”.

 

Seguindo por essa lógica, é possível verificar a negação da morte e o domínio do poder capitalista de coerção na mentalidade contemporânea. Nessa sociedade em que ter qualidade de vida é uma afirmação de poder, e que a própria existência tem valor capital, a morte desequilibra os sentimentos humanos quando esse se volta para o sentido da vida que a morte provoca. Para Rodrigues esse desequilíbrio existencial é fortalecido pelo “mito da vida”, que não propõe o questionamento sobre nossa condição humana, a consciência racional da existência. O “mito da vida” é “o banimento da ideia de morte, a postulação da imortalidade e da mortalidade humanas. É o mito fundamental, a síntese de todos os outros, o caminho que nos leva à compreensão do tabu com que envolvemos a morte e ao entendimento das estratégias pelas quais escondemos nossas dimensões de Morte”.

 

 

Diante desse modelo social que nos impõe uma relação humana de consumo, José de Anchieta Corrêa afirma que a concepção de morte também perde seu papel importante na humanidade. Nesta relação humana superficial e frágil, Corrêa afirma que o esvaziamento da morte provocado pelo exacerbado culto à mercadoria e ao prazer é próprio do capitalismo contemporâneo e está naturalizado na mentalidade cultural. Esse conflito de valores e saberes possivelmente ultrapassou as fronteiras da soberba do ser humano e o confundiu. O afastamento da própria condição natural cíclica e a ilusão de uma expectativa maior de vida vai afastando a consciência de que nascemos para morrer. Aprender a morrer, “trata-se de visitar o universo da morte, para melhor conhecer o universo da vida. A pergunta pela morte se transformará então na pergunta do homem por si mesmo, por sua origem e seu destino. Certos de que se educar para a morte só tem sentido se, ao mesmo tempo e soberanamente, for um educar-se para a vida e para mais vida”.

 

Em conformidade com esse conhecimento está a concepção de vida autêntica, que é o entendimento simples sobre a duração da vida; é assumir verdadeiramente a morte como parte integrante da existência; é “tornar-se o ser que durante toda a sua vida sabe-se prometido para a morte”. Isso implica diretamente no afastamento e na eliminação da ideia e do desejo da imortalidade, bem como em se dedicar ao conhecimento, ao entendimento e à aceitação do caráter próprio de ser e permanecer no mundo. Ser autêntico, segundo o autor, é ser devoluto para morrer e aceitar esse limite; é entender as perdas e viver o agora, sem medo, sem culpa, sem planos ilimitados. A autenticidade, portanto, é a segurança do ser humano no aprendizado da morte.

 

Outras temáticas são discutidas, como questões existenciais de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Edgar Morin afirma que o Universo é o próprio ser humano, portanto, sentimentos de não pertencimento são resultados da fragmentação e da segregação feitas pela educação social, cultural, religiosa e política.

 

É a morte que dá sentido à vida; é a morte que valoriza a vida. Saber-se mortal e prometido para o fim provoca no ser humano a paixão pela vida, ou seja, valoriza-se cada minuto

 

No caminho da evolução científica, nos distraímos e perdemos, de alguma maneira, a memória sobre a verdadeira e limitada existência. Sendo assim, a educação para o futuro proposta por Morin tem um papel fundamental para o aprendiz da vida, porque ela vai atrair e promover a existência na íntegra; ou, como defende o autor, vai promover o conhecimento da “complexidade humana”, composta pelo entendimento da condição cósmica, condição física, condição terrestre, e condição humana. A condição cósmica nos coloca à frente do conhecimento científico sobre a hipótese de formação do Universo, onde a composição química corporal humana surgiu exatamente no mesmo momento em que o Universo. Dando sequência às definições de Morin, o próximo conhecimento é sobre nosso corpo – a condição física – que é uma organização química de elementos combinados com o sol e outros elementos na Terra, que conhecemos como vida; portanto, é a “vida” posta na condição terrestre, ou seja, a autenticidade humana, física e biológica, em relação direta e vital com a biosfera terrestre. Isso se resume no que entendemos como “vida” e “morte”. O último entendimento é sobre a condição humana, é o conhecimento discutido no aspecto de hominização que abarca toda a gênese da vida. Esse ponto é abordado pelo autor com relevância: propõe que, antes mesmo do surgimento do embrião que segue por toda a história do homem, no processo bípede, na linguagem, na cultura, no trabalho, na organização social, e nos questionamentos sobre a vida e a morte, a condição humana se constituiria na organização social e cultural do homem, ou seja, é a hominização do ser, a racionalidade.

 

Essa hominização acrescenta ao ser humano o conceito de duplo princípio, o biofísico e o psico-sócio-cultural. A totalidade da condição humana não está em pensar o Universo fora de nós, mas refletir sobre essa unidade: somos “humanos terrestres cósmicos” e podemos ser entendidos em toda essa complexidade. E o que efetivamente torna o humano um Humano é a cultura, e a cultura só existe porque há seres humanos. Ela normatiza princípios, os conserva e os transmite, perpetuando a condição do humano nos âmbitos intelectuais, emocionais e morais, ou seja, em sociedade.

 

Assim, o mérito da vida é dado justamente ao que autenticamente se tornou conhecedor da própria condição de mortal. Pensar na morte e dominá-la enquanto fator surpresa só auxilia o ser humano na sua jornada única de existência na Terra; isso significa desfrutar a vida com mais profundidade, envolver-se intensamente com o mundo e não permitir que a perversidade do mercado de consumo ou da religião retire, por meio do conhecimento e aceitação da morte, o prazer pela vida.

 

 

 

Ser humano real e ser humano ideal

A ideia de imortalidade é uma temática fundamental para discutir a vida real. Tal concepção norteia a forma de vida, as relações sociais e a compreensão de si mesmo enquanto ser humano. Segundo Rodrigues “a consciência da morte abre uma passagem pela qual vão transitar forças notáveis que transformarão a maneira humana de ver a vida, a morte, o mundo”.

 

A “morte é a única certeza absoluta no domínio da vida”, ela não pode ser negada e, por relação direta, a vida também não pode ser negada. Então, se deve considerar que a não negação à vida implica em uma postura de viver com autenticidade: viver a verdade, legitimar a existência, corroborar a ética do bem viver, manter a etiqueta, agir, se indignar com tudo que for contrário à felicidade e ao contentamento.

 

Mas, o que a sociedade contemporânea determina ao ser humano como modelo atual são o tabu e o espetáculo midiático da morte. Propõe a cultura cinematográfica da agressão, da vingança, do ódio e da violência. Impõe o culto ao corpo saudável, à estética impecável e à juventude eterna. Acolhe o consumismo como regra de convívio social, de aceitação e de formação de identidade: não é permitido a cada um ter o domínio sobre a própria vida, quase somente se sujeitar às coerções sociais e religiosas.

 

 

Desta feita, os modelos atuais de ser humano causam distrações que acabam desviando a atenção sobre a vida. Eles preenchem o dia-a-dia de forma que cegam, entorpecem, anestesiam e impendem que se tenha tempo para estar consigo mesmo, pensar em si mesmo, em quem é, onde está e para onde vai, se realmente gosta disso ou daquilo. A ausência de entendimento e de compreensão desencadeia negligência e insensibilidade sobre a própria vida. Segundo Rodrigues, estamos “vivendo em uma sociedade anestesiante, estamos todos anestesiados, incapazes de sentir sobre nós a pressão do poder. Lobotomizados por todos os meios, semiológicos, econômicos, políticos… estamos incapacitados de sentir conscientemente a tortura silenciosa de que somos objeto todos os dias. Incapazes de sentir prazeres provocados por estímulos de baixa intensidade, escravizamos nossos prazeres à necessidade de estímulos mais fortes e nos proibimos, como em muitos outros níveis de nossa existência, a satisfação com pouco.”

 

Em parceria com o sistema econômico nesse modelo de ser humano, as religiões impõem suas verdades sobre livros sagrados, que não deixam de ser verdadeiros guias morais de controle social; pregam a caridade, a verdade, a solidariedade, o respeito; mas é possível vislumbrar seu fracasso a olhos nus, pois o discurso do bem está impregnado de maldade, preconceito e vingança. As religiões acolhem seus iguais na fé, mas rechaçam violentamente os demais. Arbitrar se tornou um forte requisito de pertencimento social, e, a cultura fortalece e normatiza tal comportamento, já que ela “é um código de estruturação que gera lei e ordem”, mas fracassa em tentar desesperadamente “controlar os processos naturais”, o que, neste trabalho, compreende o evento da morte. Nesta lógica segue também o entretenimento do cotidiano. Somos bombardeados por imagens de ódio e vingança, sem nenhum conteúdo, sem nenhuma dimensão trágica. São fatos “esquecíveis” que, ao desligar nossos meios de comunicação tão rapidamente se apaga da nossa consciência.

 

Nesta lógica de consumo, a vida humana, de certa forma, transformou-se em mercadoria, em produto de consumo, ou seja, um objeto que adquire forma quando a necessidade de se manter jovem, combinada perigosamente com o despropósito da vaidade, retira do ser racional a autonomia para fazer as suas escolhas e questionar sua existência.

 

 

Esse zelo excessivo ao corpo é legitimado pelo discurso da qualidade de vida e da saúde, da longevidade e da estética. Rodrigues alerta que essa exigência é própria do mercado de trabalho, que considera que o corpo deve estar funcionando e em excelente estado, apto e pronto para produzir e consumir. Neste quadro temos um ser humano bem real perseguindo a falsa imortalidade. Temos o ser humano glutão, avarento, lascivo, colérico, invejoso, preguiçoso e vaidoso; e talvez, esse seja o ponto de mutação para pensar uma outra concepção de ideal de ser humano, pensando em um discurso de resistência, afirmando a não aceitação da forma de vida imposta. Um novo ideal de ser humano deve propiciar aos indivíduos a capacidade de viver, de tomar a vida para si, saber correr riscos, “pois não querer morrer e não querer viver são a mesma coisa”; a morte e a vida são a mesma coisa. Quem não se arrisca, já morreu.

 

 

Esse ideal de ser humano proposto deve dispor que é um prazer viver a vida, que a qualquer momento aquele minuto pode findar, e que esse fim não lhe apavora porque é tão natural quanto a vida. Segundo Corrêa, “no homem autêntico não deve existir o desejo de imortalidade, pois morrer é a possibilidade mais extrema do homem, seu modo próprio de ser-no-mundo. O ideal ético do homem é, pois, tornar-se autenticamente “livre para a morte”. O autor, portanto, não se aborrece com a morte e não usa o discurso para apavorar ou cobrar os outros. Ele concebe a morte como vida que termina; não há planos pendentes nem planos futuros; o ser humano ideal tem somente a vida do presente que o coloca diante das relações com mais amor e lhe dá sentido. Sendo assim, “a morte, então, longe de tirar o sentido da vida, torna-se fundamento, causa e convite para valorizar ainda mais a vida do tempo presente. O homem, então, tendo seus passos guiados por essa iluminação, dar-se-á por tarefa gozar do convívio junto aos seus, entreter amizades, desenvolver compaixão e tolerância para com o outro, trabalhando sempre por gerar mais vida, mais amor, mais alegria, lutando para promover a justiça e a paz no mundo”.

 

Nesta mesma concepção segue Luc Ferry para um ideal de ser humano que se permita o autoconhecimento, a compreensão do outro e do universo humano, se distanciando de si mesmo temporariamente. Esse afastamento temporal tem por objetivo se colocar no lugar do outro para olhar para si mesmo e “contemplar o mundo como espectador interessado e benevolente. Aceitando descentrar sua perspectiva inicial e arrancar-se ao círculo do egocentrismo, ele pode penetrar nos costumes e valores diferentes dos seus; em seguida, ao se voltar para si mesmo, tomar consciência de si de modo distanciado, menos dogmático, e com isso enriquecer suas próprias ideias”.

 

Para Edgar Morin, “quem”,“onde” e “para” são questões com um grande propósito: conhecer qual nosso lugar no mundo

 

Para o autor, esse afastamento, nomeado por ele como “pensamento alargado”, é o princípio para o conhecimento da condição humana, que, mantendo-se afastado dos próprios dogmas, pode dispor de outras concepções sobre o sentido da vida. Pensar sobre a própria morte coloca o ser humano diante da vida, das relações e da alegria de tornar o momento vivido no presente como eterno e precioso já que, para o autor, o passado e o futuro são “dois nadas”.

 

Nesse sentido, para conduzir a humanidade a outra forma de pensamento, Morin nos traz, com a “Teoria da Complexidade”, elementos valiosos para a educação do futuro. Sua proposta está em conduzir a humanidade para o conhecimento do todo, sem fragmentar os saberes. O autor aposta na própria contradição humana para o sucesso de uma nova mentalidade. Diz que “aquilo que porta o pior perigo traz também as melhores esperanças: é a própria mente humana, e é por isso que o problema da reforma do pensamento tornou-se vital”. Logo, de acordo com Morin, é a partir de uma nova educação, da unicidade humana, que é possível derrubar preconceitos culturais e fronteiras terrestres, e se torna viável criar um sentimento de pertencimento com escala universal, num processo planetário de formação da cidadania terrestre. Esse amor e essa compreensão são frutos do conhecimento da condição humana de toda a complexidade que tal instrução constrói no ser humano, que desta forma “conduziria à tomada de conhecimento, por conseguinte, de consciência, da condição comum a todos os humanos e da muito rica e necessária diversidade dos indivíduos, dos povos, das culturas, sobre nosso enraizamento como cidadãos da Terra”.

 

O conhecimento sobre a condição humana, e o interesse pela vida e pela morte no contexto capitalista são os pontos mais relevantes apresentados neste texto. As propostas discutidas apontam para uma mudança de mentalidade e clamam por um ser humano autêntico, um conhecedor de si mesmo e de sua condição. Contudo, esse saber que permeia concepções sobre a condição humana e o aprendizado sobre a própria morte não tem espaço para discussão na sociedade contemporânea.

 

Segundo Rodrigues, na mentalidade capitalista, a morte deixa de ser fatal para se colocar como uma probabilidade. Esse pensamento engana de forma perversa a real condição e desvia o conhecimento racional para um labirinto de ilusões morais e espirituais, isentando o ser humano da responsabilidade por si mesmo e pelo outro, criando uma mentalidade de imortalidade falsa. Nesse mesmo contexto, Corrêa fortalece esse discurso apresentando uma relação mercadológica e consumista que, praticada na vida cotidiana, conduz à mesma prática na relação com a morte – ou seja, superficial e efêmera. Aprender a morrer é aprender a viver. Nesse viés, conhecer a morte é conhecer o sentido da própria existência e fazer da vida um tempo de amor, tolerância, compreensão e intensidade; é ser autêntico, e, para que esse aprendizado possa se efetivar de forma institucional, Morin aborda essas questões trazendo para o âmbito didático a apresentação e representação humana como ciência.

 

Pelo viés científico, Morin apresenta a “Teoria da Complexidade” como forma acadêmica de ensinar e aprender sobre a condição natural dos seres na Terra: a condição cósmica, a condição física, a condição terrestre, e a condição humana. O trabalho desse autor contribui para aproximar todas as discussões apontadas à instituição escolar como forma de educação para a vida e para a morte, instigando um novo sistema de crenças que questiona a necessidade de buscar conhecimento sobre a finitude posta pela natureza humana.

 

Refletir sobre a própria morte e a finitude, segundo o filósofo francês Luc Ferry, é a única forma de conduzir a humanidade para uma relação de mais amor, tolerância e afeto

 

Mas todo esse movimento de aprendizado sobre a própria morte contradiz o sistema capitalista. Aprender a morrer, necessariamente, exige do aprendiz uma racionalidade e criticidade diante do poder midiático e controlador de todo um sistema que banaliza a vida e a morte com propagandas de desvalorização da vida, e do discurso subliminar da imortalidade nas práticas exacerbadas para manter-se saudável e jovem. Para romper essa lógica de entorpecimento coletivo é fundamental tomar a vida com total responsabilidade.

 

Livre do controle e da opressão causados pelo mercado de consumo, Rodrigues chama atenção sobre o controle moral das religiões. O autor destaca que a instituição religiosa fortalece ainda mais o tabu da morte quando desvaloriza a vida terrena para garantir uma vida espiritual eterna. Essa mentalidade provoca um estado de existência em que os vivos caminham mortos pela Terra, e, estando mortos, a vida não instiga sentimentos de pertencimento ao mundo. Ao contrário de uma vida sem sentido está justamente o conhecimento e aceitação da morte. Contemplar a si mesmo ajuda o ser humano a contemplar o mundo. Afastando-se de si mesmo, como assegura Ferry na defesa do “pensamento alargado”, o exercício da empatia e simpatia pelo outro se efetiva na consciência humana, gerando mais amor e respeito, porque todos que caminham pela Terra são prometidos para a morte; ou seja, a morte nos coloca, como nenhum outro evento, em equidade.

 

Mesmo diante da resistência e do poder de dominação imposto, talvez seja possível encontrar brechas e subverter alguns paradigmas; porque, se temer a morte implica em temer a vida, se torna urgente pensar numa existência mais tranquila e segura de que, mesmo sabendo que somos mortais, isso não nos proíbe de viver em contentamento. Constatar que há implicações austeras não significa que se deve ser conivente a elas. E aprender a morrer, talvez, nos seja possível.

 

 

*Poliana Murer Cavalcante Doi é graduada em pedagogia pela Universidade Estadual De Campinas – FE/UNICAMP

Adaptado do texto “Pedagogia da morte” | A pesquisa que fomentou o artigo é  nanciada pelo Centro Nacional de Desenvolvimento Cientí co e Tecnológico (CNPq), através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientíca e Tecnologia (PIBIC). O artigo foi produzido a partir dos resultados parciais da pesquisa desenvolvida no período de agosto de 2014 a janeiro de 2015 na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 120