A mágoa e o caminho da cura

Por Eduardo Martins Balthazar* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

A mágoa é a consequência natural da falta de metabolismo emocional. Ela compõe o roll das “doenças ocultas”, aquelas que, se o profissional da saúde não desconfiar, será ignorada na consulta, assim como a depressão leve e o transtorno de ansiedade generalizado, entre outros.

 

A mágoa ou o ressentimento de uma pessoa tem como base a transferência de responsabilidade afetiva. Normalmente, quem se magoa são pessoas que naturalmente dão mais valor aos outros do que a si mesmas.

 

Além disso, a mágoa pode ser a evolução de uma profunda frustração, derivada de uma grande geração de expectativa. Não se esperava que o amor da sua vida o traísse. Ou que aquele emprego tão cobiçado fosse perdido por uma demissão abrupta, sem uma causa justa ou maiores explicações.

 

Nestes casos, o eixo gravitacional  da consciência pende sempre para fora, ou seja, não há um olhar íntimo, interno. A culpa por estar se sentindo mal é sempre do outro. E é preciso culpar alguém para aliviar o mal-estar.

 

Na verdade, o que pode ocorrer são os dois extremos: ou mergulha-se de cabeça no mal-estar e vem o desespero, ou nega-se, e faz-se de conta que não está ocorrendo nada. Em ambos os casos, inviabiliza-se o fluxo da cura, que seria: assumir o sentimento como próprio, não culpar ninguém, dar um o nome para ele (mágoa, raiva, ressentimento, medo ou culpa, entre outros) e buscar o comportamento oposto a fim de se chegar na remissão daquele estado mórbido.

O que o terapeuta enxerga?
De que somos feitos?

 

É comum ouvir: “estou com raiva porque fulano me fez ficar com raiva”. Essa é a forma como muitas pessoas percebem os mal-estares provocados pelas alterações emocionais. Ao transferir para o outro o mal-estar, a pessoa não se dá conta que, se a responsabilidade do atual estado íntimo emocional é de terceiros, a cura também será. Logo, a pessoa acaba de criar um vínculo patológico de dependência com os outros. Não raro, ela cobra do outro que lhe peça desculpas para que possa voltar a ficar bem.

 

A Consciencioterapia, promovida pela Organização Internacional de Consciencioterapia (OIC), propõe o ciclo autoconsciencioterápico: autoinvestigação (do mal-estar), autodiagnóstico (dar um nome, por exemplo, “raiva”), autoenfrentamento (buscar comportamentos mais pacíficos) e autossuperação (eliminar de vez o comportamento da raiva). Muitos de nós não conhecemos nossos referenciais. Por não conhecer, facilmente criamos referenciais externos de validação da vida e do cotidiano. Isto é conhecido na Psicologia como loc externo, ou o loc of control da consciência.

 

Proponho que assumamos novos referenciais íntimos, trazendo o loc of control para dentro de si. Com o centro de gravidade agora internalizado, mais sadio e homeostático, pode-se analisar os fatos e a realidade sem o viés emocional, as distorções cognitivas e os já conhecidos autoconceitos derrotistas e negativos.

 

É a partir desses novos padrões íntimos de equilíbrio e harmonia que poderemos superar em definitivo as mágoas e rancores do passado, liberando a nós mesmos para novos patamares evolutivos.

 

 

*Eduardo Martins Balthazar é médico do corpo clinico do Hospital Ministro Costa Cavalcanti e associado ao corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Ele é autor do livro Higiene consciencial – reconquistando a homeostase no microuniverso consciencial.

Adaptado do texto “Mágoa: a doença oculta”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 123