A filosofia no Ensino Médio

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A recente reforma do ensino médio afetou duramente a filosofia e a sociologia. Desde os anos 1970 se lutou para estas disciplinas voltarem à grade curricular dos alunos de 15 a 17 anos. Eu mesmo participei desta mobilização no seu difícil início. Fernando Henrique Cardoso vetou essa volta em 2001, Lula a sancionou em 2008. Os colegas que atuam na área elogiam os resultados de oito anos da obrigatoriedade dessas duas matérias.

Muitas escolas, porém, adotam só uma hora semanal de Filosofia. O professor tem que lecionar em várias escolas para ter um salário adequado, ou acumular o ensino de Filosofia e/ou Sociologia com outras matérias. É um grande problema.

Penso também que a área cometeu um erro ao insistir que Filosofia é história da filosofia. Claro, não há filosofia sem filósofos, dos antigos aos atuais. Mas, em geral, estudar os filósofos em torno de grandes temas me parece resultar melhor para a formação dos alunos.

Defendi, no debate da base nacional curricular de filosofia e de sociologia, aproveitar as duas matérias para formar o aluno como sujeito ético, politico e profissional.

Um defensor da supressão da filosofia e da sociologia no ensino médio disse recentemente: ninguém precisa conhecer sociologia para ler um jornal. Penso o contrário. Pode alguém ler o caderno de Geral ou Cotidiano, que trata sobretudo de violência e carências, sem saber o que é uma sociedade hierarquizada sobre as diferenças sociais? É isso o que a sociologia pode lhe ensinar de melhor. Sem isso, ele acreditará que miséria e crime resultam da vadiagem e maldade. Ignorará duzentos anos de conhecimento sociológico.

Minha sugestão era: no primeiro ano do médio, priorizar na Filosofia a ética, em especial com Aristóteles, Kant, Maquiavel relido pelo século XX (Merleau-Ponty, Isaiah Berlin). Não seria uma lista do certo e do errado, mas um convite à autonomia, à escolha própria do que considera justo ou injusto. No segundo ano, teríamos Teoria Política Democrática, incluindo democracia direta e representativa, direitos humanos, eleições, presidencialismo ou parlamentarismo (isto é, um curso de Filosofia Política auxiliado pela Ciência Politica). Nessa idade, aos dezesseis anos, o aluno já pode votar: por que não o preparar para isso, sem doutrinação mas com formação? No terceiro ano, se poderia escolher entre Estética, Teoria do Conhecimento e História da Filosofia, conforme o projeto da escola.

Em todos os anos, a maior parte dos autores a estudar seriam filósofos.

Já em Sociologia, um ano se poderia dedicar à diferença de classes, necessária para se entender o mundo moderno; outro à Antropologia, tratando da diversidade das culturas e realçando a importância no Brasil da culturodiversidade, sobretudo indígena; um ainda, à Economia, explicando o capitalismo – regime econômico hoje dominante – e as críticas dirigidas a ele por movimentos trabalhistas, sociais e agora ambientais.

O principal: nenhuma disciplina no ensino médio deve ser um trailer da futura graduação. O ensino médio completa os 14 anos de escolaridade obrigatória. Deve pois completar no que for possível a formação da vida pessoal, cidadã e profissional. Deve se inspirar em Rabelais, que preferia a cabeça bem feita a repleta, e em Rousseau, que queria que se ensinasse coisa útil. O problema maior de nosso ensino é que o excesso, o inútil, volta o tempo todo. Pouco se pensa no aluno.

 

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 124