A filosofia no cinema

Por Victor Costa* | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

 

O Juramento de Hipócrates é um juramento simbólico e solene feito por médicos no momento de sua formatura. É uma tradição milenar. Descende dos ideais filosóficos e sociais de Hipócrates, famoso médico da Grécia ­Antiga, contemporâneo de Platão e de Aristóteles. Ele é tido como o pai da medicina ocidental. Há quem diga que o tal juramento tenha sido escrito tempos depois, por discípulos de Hipócrates. De uma maneira ou de outra, ele condensa as ideias do velho médico. Visto hoje, à distância, o juramento é um tanto controverso. Como escreveu o médico Drauzio Varella: “faz sentido jurar por Apolo, Asclépios, Higeia e Panaceia não fazer sexo com escravos quando entramos na casa de nossos pacientes? Ou não usar o bisturi, mesmo em casos de cálculos nos rins? Ou prometer ensinar nossa profissão gratuitamente aos filhos de nossos professores, como Hipócrates preconizava? Por que não estender esse privilégio a todos os que estiverem dispostos a estudar? Existe visão mais corporativista?”. Mas é verdade que o juramento contém intenções filosóficas das mais louváveis, como o respeito ético no relacionamento com as pessoas em momentos de máxima fragilidade física e psicológica – portanto, em uma compreensão que inclui a personalidade no organismo humano.

 

Essas questões, especialmente a controvérsia de se fazer o Juramento de Hipócrates nos dias de hoje, são um dos núcleos problematizados por um recente filme francês, chamado, justamente, Hipócrates, do diretor Thomas Lilti – médico que trocou essa profissão pelo cinema. No filme, acompanhamos o jovem Benjamin em seus primeiros dias de residência médica em um hospital entre cujos chefões está seu próprio pai. Benjamin tem um universo à sua frente, a prática médica. Seu parceiro de trabalho no hospital é uma pessoa com mais experiência, mais velha: Abdel, um argelino, também residente, que luta para ter seu diploma de médico reconhecido na França.

 

Numa noite de plantão, Benjamin se depara com Lemoine, um alcoólatra que se queixa de fortes dores. Sem o equipamento para fazer um exame, o jovem administra um mero analgésico para Lemoine, que, no dia seguinte, amanhece morto. Os superiores de Benjamin, incluindo seu pai (e sobretudo este), encobrem seu erro. E forjam um relatório no qual consta o uso do equipamento que Benjamin de fato não havia usado para um exame mais preciso. Tivesse feito o exame, teria tomado outras providências fora ministrar o analgésico. Abdel desconfia da história toda, e acaba descobrindo a verdade. A relação entre os dois é tocante, para além do bem e do mal. Benjamin deixara de usar o equipamento por conta das burocracias que envolviam seu uso, da papelada necessária e, também, dos egos envolvidos. Abdel o entende.

 

Conheça a Bioética da Intervenção

 

Em outro subnúcleo dramático, Benjamin e Abdel, juntos, deparam-se com uma senhora que não quer permanecer viva por meio de equipamentos. Ela prefere que os médicos os desliguem. O tema da eutanásia não desvia o enredo do desenvolvimento da persona médica de Benjamin; pelo contrário, aprofunda-a. Desligar ou não os equipamentos, com o devido consentimento da família dessa senhora, passa pelo pensamento dos gestores do hospital – pautados nos lucros de um leito a mais ou um leito a menos. Em algum momento, impossível não voltarmos à pergunta do Dr. Drauzio: existe visão mais corporativista?

 

A Filosofia tem se debruçado sobre uma disciplina relativamente nova ligada às questões que estou tratando aqui, a Bioética, que aborda a Ética aplicada às decisões médicas. A Bioética é caracterizada pela interdisciplinaridade. O pensamento bioético procura problematizar as diversas práticas tecnocientíficas da medicina e da biologia e promover debates pluridisciplinares em resposta aos problemas destas. Isso fomenta o embate de pontos de vistas originados da Filosofia Moral, do Direito, da Teologia, e ainda de outras Ciências Humanas (em especial Sociologia, Antropologia, Ciências Políticas, Psicologia e Psicanálise). Em Bioética, podemos falar de princípios em vez de conceitos. E alguns deles vemos claramente no filme Hipócrates.

 

A (des)humanização do parto

 

O princípio da autonomia, que implica que o paciente deva ser sempre informado sobre sua condição clínica. O princípio da beneficência, que consiste em fazer o bem para outrem, ou, especificamente na prática médica, a avaliar para o paciente a relação entre riscos e benefícios. O princípio da não-maleficência, que advém diretamente da tradição hipocrática, a qual diz que o médico não deve prejudicar seu paciente. Ou, por fim, o princípio da justiça, que se refere à justiça distributiva, o que, na prática médica, denota tratamento equitativo para todos. Os quatro princípios determinam uma moral teórica e concebem um método que, no nível prático, deve ser atualizado a casos particulares – daí a ideia de haver conselhos de ética nos hospitais, bem como nos trabalhos de pesquisa acadêmica. O princípio da autonomia, para me concentrar em apenas um, é ancorado no conceito de dignidade humana, o qual exige a aceitação de que as pessoas se autogovernem, sejam autônomas quer em suas escolhas, quer em seus atos. Os fundamentos filosóficos deste conceito podem ser encontrados, entre outros autores, em Locke, KantStuart Mill. Ele é fundamental porque retira o aspecto pitoresco que o Juramento de Hipócrates imputa ao médico: um pretenso sacerdote, o escolhido dos deuses. E também rompe com o corporativismo dos empresários da saúde, porque as decisões médicas, embora devam passar pelo domínio técnico, não se limitam à técnica. O exercício da autonomia envolve ouvir as pessoas, observá-las, discutir com elas as opções mais adequadas. Trocando em miúdos, o que vejo na história do início deste texto, no filme Hipócrates e na maioria dos textos do Dr. Drauzio (em especial, no livro Por um fio), é que cuidar inclusive das narrativas que os doentes contam é um ato ético. Tornar as narrativas objetivas e compreensivas é um desafio ético que também atravessa a prática médica.

 

 

*Victor Costa é redator e roteirista. Mestrando em Filosofia no HCTE-UFRJ e bacharel em Filosofia pela PUC-Campinas. Estudou roteiro cinematográfico na EICTV, em Cuba. www.facebook.com/remosinuteis
E-mail: victorcosta.pauta@gmail.com

Adaptado do texto “O médico nosso de cada dia”

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