A Filosofia de Raul Seixas

Por Flávio Paranhos* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês
(…) É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social
Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar
(…)

 

Provavelmente você já reconheceu de onde tirei os versos acima. Tive de cortar bastante a letra da música Ouro de tolo, de Raul Seixas, senão tomaria o espaço todo da coluna. O que não seria, em termos de conteúdo, uma perda. A letra dessa música é um tratado de Filosofia e se basta. Nada que eu escreva a seguir pode chegar-lhe aos pés. Mas, enfim, quem assina a coluna sou eu, e não Raulzito. De forma que não seria bonito de minha parte.

 

Confesso, de saída: não fui seu fã quando ele era vivo. Na década de 1970, quando fez sucesso, eu era criança. Na de 1980, quando estava decaindo, suas músicas estavam se tornando clássicos bem na hora em que eu só apreciava mesmo rock nacional do momento (Legião e companhia) e rock progressivo e heavy metal (Black Sabbath e companhia, com concessões a Pink Floyd). O Flávio dessa fase considerava o Raul uma bizarrice infantil (adolescentes sabem de tudo, não é mesmo?).

 

 


O tempo passou, fui ficando cada vez mais eclético, até que um belo dia comprei um CD de um cantor de quem gosto muito, o Zé Ramalho, cantando músicas do Raul. Antes de me tornar pai, eu tinha o hábito de, após uma sexta-feira de cirurgias, sentar-me na varanda de meu apartamento pra fumar cachimbo e tomar cerveja, ouvindo música. Foi numa dessas sextas que ouvi o CD. Quando tocou Ouro de tolo tive uma epifania catártica (ou terá sido uma catarse epifânica?). Chorei compulsivamente.

Ouro de tolo é dessas obras-primas do mesmo quilate da nona do Beethoven, a sexta do Mahler, Take Five, do Brubeck, enfim, dessas obras geniais que só podem ter sido por inspiração demoníaca. Digo “demoníaca” e não divina, pois tenho uma teoria. Os movimentos pares das sinfonias ímpares de Beethoven foram escritos pelo Diabo, e os ímpares das pares, pelo Divino. Nem preciso dizer quem escreve música melhor.

E é ele mesmo, o diabo, a inspiração para Sociedade alternativa, de acordo com o documentário Raul – o início, o fim e o meio, de Walter Carvalho. O que não seria uma surpresa se eu tivesse prestado mais atenção à letra:

“-O número 666
Chama-se Aleister Crowley
Viva! Viva!
Viva! A Sociedade Alternativa
-Faz o que tu queres
Há de ser tudo da lei.”

E o culpado disso? Paulo Coelho. Assim como pela introdução a praticamente todas as drogas disponíveis, de acordo com o próprio Paulo Coelho. Então Raul era adepto de uma seita malévola. Aparentemente, nem a seita era malévola (dois de seus integrantes são entrevistados e parecem bastante inofensivos, normais mesmo, desses que esperam a morte chegar sentados com a boca escancarada cheia de dentes), nem Raul era propriamente um “adepto”.

Caetano, que aparece várias vezes no documentário, por sinal uma delas cantando improvisadamente Ouro de tolo, conta uma historinha interessante a respeito disso. De acordo com ele, um belo dia Raul aparece em sua casa com essa conversa esquisita, a que Caetano reage com ironia respeitosa. E a reação de Raul é, como se diz hoje, de boa. Se ele fosse um adepto de verdade, provavelmente apelaria.

 

 

Essa reação, narrada por Caetano, é simbólica do que parece ter sido toda a vida de Raul Seixas. Uma brincadeira. Mas não uma brincadeira qualquer. Uma montanha-russa. Ter sido casada com ele, por exemplo, não foi tarefa fácil, como atestaram suas ex-mulheres (a primeira, inclusive, nem sequer aparece) no documentário.

Se tem uma coisa que ele não fez foi, definitivamente, ficar sentado no sofá de seu apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes (ou sem nenhum), esperando a morte chegar. Ele correu atrás da morte. Provocou-a com músicas premonitórias, drogas, bebidas, sexo e rock‘n’roll.

Mas… (Sempre há uma adversativa, já viu? A vida é cheia delas). Podemos dizer que a filosofia de Raulzito valeu a pena? Veja bem. Não pra você ou pra mim, mas pra ele. O que é melhor? Ser medíocre e jogar pipoca aos macacos aos domingos ou ser um gênio e ter uma vida montanha-russa?

 


Conversando sobre isso à mesa, coloquei a questão à minha esposa: é melhor ser um burguês acomodado? Minha caçula (11 anos) quis saber o que era um burguês. Eu respondi: nós. E isso é ruim? Boa pergunta. Que pode ser posta de outra forma: Raul viveu para si ou para os outros? Sim, porque se ele tivesse decidido seguir o plano A, a saber, uma vidinha medíocre como a sua e a minha, nós não teríamos Ouro de tolo para nos tirar do pasmo escancarado e cheio de dentes. Então a resposta para nós, no que diga respeito a ele, é fácil. Que bom que ele se afundou em drogas e bebida, sem as quais não “funcionava”, que bom que ele não esperou a morte, como nós, mas, sim, correu atrás dela como um louco. Ou melhor, maluco beleza.

A criatividade, e eu me refiro à criatividade pra valer, e não aos dedilhados hesitantes no violão de você, burguês que me lê com a boca cheia de dentes, ou minhas próprias dedilhadas no teclado do computador, é muito mais uma maldição do que bênção. O que me traz de volta à minha teoria. A arte de verdade, aquela que nos transporta a um estado fora de nós mesmos, é obra do demo. Fausto sabia disso. Você sabe disso. Mas você e eu preferimos esperar que nos joguem pipoca aos domingos.

 

*Flávio Paranhos. Médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (Harvard) em Oftalmologia. Mestre (UFGO) e visiting fellow (Tufts) em Filosofia. Professor da PUC Goiás. Autor de Cinema & Filosofia (Kindle Portuguese Edition) e do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial).

Adaptado do texto “Toca Raul!”

Fotos: Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 108