A Ética no discurso político

Por Clóvis de Barros Filho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Discursos muito diferentes sobre a Ética dos dias de hoje fazem parte do nosso cotidiano eleitoral. Alguns denunciam o fim dos valores, outros, o colapso de toda referência prática com pretensão universal. Sem normas ou imperativos a respeitar e desprovidos de virtudes, assistimos atônitos na mídia ao eclipse do dever, à liquefação da moral. Neste mundo as pessoas tornaram-se assumidamente instrumentos. Ortopedizadas como pés em palmilhas pela topografia das exigências institucionais sem condição de vontade, boa ou má. Desmoralizadas, em suma.

 

Outros discursos analisam este mesmo mundo de forma quase oposta. Teríamos alcançado o ápice do desenvolvimento moral. Depois de séculos regidos por restrições e coerções tuteladas por éticas irracionais, por morais dogmáticas e classistas, hoje a racionalidade moral e os discursos normativos parecem ter se instalado definitivamente.

 

Valores éticos em crise

 

Por fim, alguns discursos, ao rejeitar os dois primeiros, asseguram que as democracias liberais patrocinam uma vida moral bastante pujante. Regida pelo pragmatismo – objetivado na busca de resultados ou metas – salpicado aqui e acolá de utilitarismo – felicidade do entorno, incluindo plantas e animais – e de um certo respeito a princípios morais – também chamados de valores. Estes terão mais chance de ser respeitados se não atrapalharem a concentração de capital e o acúmulo de recursos.

 

Por trás de tamanha diversidade na análise da Ética dos discursos políticos, alguns fatores implícitos parecem estar sempre presentes. Obviedades que merecem lembrança. Servem de guia para iluminar a complexidade.
Toda Ética implica em renúncia. Abrir mão de alguns dos próprios interesses, apetites ou desejos em nome de uma convivência mais harmoniosa. Abdica-se do que beneficia a primeira pessoa do singular mas compromete os interesses da primeira pessoa do plural. Primazia do nós sobre o eu. Vitória do interesse público sobre os múltiplos e esparsos interesses privados.

 

A corrupção noticiada na mídia

 

Situações corriqueiras ajudam a entender esta perspectiva. Imagine um casal das antigas, um homem e uma mulher casados. Compartilham quarto, banheiro, roupas de cama, toalhas, etc. Esse compartilhamento faz parte da convivência. Numa situação dada, um dos membros deste casal, por conta de uma higiene pessoal malfeita, suja a toalha de uso comum. Ora, essa sujeira pode ter várias explicações: o hábito de terminar a limpeza na toalha. Afinal, aquele cônjuge sempre fez isso. Ou um desleixo inusitado de alguém excepcionalmente apressado.

 

Há nesta prática do agente sujismundo um conforto. No caso do hábito, a segurança, rapidez e eficiência de fazer o de sempre. No caso da pressa inusitada, acelerar um procedimento, chegar mais rápido. Em contrapartida, por conta desta conduta confortável para quem age, fica desconfortável o uso da mesma toalha pelo outro membro do casal. O que compromete a convivência.

 

O cônjuge que sujou a toalha preferiu garantir a sua própria comodidade em detrimento da melhor convivência possível. Para que esta fosse preservada, ele teria que fazer o que nunca fez. Abrir mão do conforto de uma prática reiterada. Ou suportar o desconforto de um procedimento mais lento, o constrangimento de chegar atrasado. O fato é que ele optou por garantir o próprio prazer e comodidade em detrimento da convivência do casal.

 

O financiamento da esquerda

 

Você que visualizou bem essa situação poderia ampliá-la só um pouquinho. Imaginemos não mais um casal, mas um grupo de políticos eleitos. Os comportamentos de cada um poderão estar alinhados ao que eles entendem como a melhor convivência possível. São eles que discutem e decidem quais as condutas aceitáveis, garantidoras de uma boa convivência, e aquelas que poderão comprometê-la. E, uma vez definidas e classificadas as condutas segundo esse critério, o que se espera é que elas se convertam em referência prática. Que funcionem como normas. E que cada um dos membros da república as respeite.

 

É claro que no dia a dia haverá situações concretas em que os apetites, desejos, pulsões e inclinações de cada um os estimulem a transgredir as normas. Isto é, a agir de maneira desalinhada com aquele entendimento de boa convivência. Como, por exemplo, aceitar dinheiro de lobistas do setor financeiro para dirigir a economia a seu favor. Nestes casos, há um conflito entre os interesses de um grupo de políticos e o entendimento coletivo sobre a conduta esperada e protetiva da sociedade que os elegeu.

 

A democracia teve dois antagonistas – a monarquia e a aristocracia

 

Ora, se você acompanhou os exemplos do casal e dos políticos, talvez não seja difícil olhar ainda mais de cima e considerar um Estado. Seus moradores podem amiúde debater a respeito de quais condutas são contributivas da convivência de todos e quais são lesivas. Debate sem fim. Porque somos sempre confrontados com situações inéditas de vida que exigem a toda hora uma reflexão coletiva sobre a prática adequada em busca dos melhores argumentos. Seus diagnósticos são, portanto, sempre provisórios. Sujeitos a uma nova discussão e a ponderações enriquecedoras.

 

Então, como no caso do casal, com o Estado acontece o mesmo. É perfeitamente possível que, por questão de comodidade, interesse pessoal, redução de custos e tempo, passe pela nossa cabeça alguma conduta já discutida e entendida como lesiva à convivência de todos. Quando falamos de uma conduta antiética na política importa o desalinhamento entre o desejo, a inclinação, a pulsão dos políticos e a proteção dos interesses e bens comuns da comunidade de cidadãos que os elegeu.

 

*Clóvis de Barros Filho é professor de  Ética da ECA/USP e conferencista do Espaço Ética. www.espacoetica.com.br