A educação pública marginalizada

Por Arthur Meucci | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

 

Quando iniciei minhas pesquisas de campo com as comunidades escolares, em 2014, registrei discursos pre-conceituosos de  entrevistados das classes econômicas B e A sobre uma escola pública estadual situada em um bairro nobre na cidade de São Paulo. Todos eles afimaram não conhecer aquela escola, nem entraram ou participaram da vida escolar daquela instituição, mas reproduziam um discurso alinhado de criminalização dos estudantes.

 

Um comerciante próximo da escola, que afirmou nunca ter sido assaltado por um menor de idade, classificou os seus estudantes como potenciais criminosos. “Não quero ser preconceituoso, mas essa gente é pobre, menor de idade. Bate um vício de droga, uma maldade, eles podem vir aqui  assaltar, barbarizar, e não vão presos”. Quando pedi para ele justificar o seu ponto de vista, falou: “Na TV sempre falam desses problemas”. Em seu estabelecimento, a televisão ficava sintonizada em um programa de jornalismo policial transmitido no final de tarde na capital paulistana. Os comerciantes e moradores entrevistados, fiéis telespectadores de jornalismo policial, defendiam o fechamento  da escola pública para melhorar a segurança na região, mesmo sem conhecer um único crime cometido pelos estudantes da escola.

 

Consultei a delegacia responsável pela região e o delegado afirmou que não havia incidência de  crimes envolvendo menores perto da escola. Ele também disse que nos cinco anos que ele trabalha na  delegacia, não se lembra de problemas envolvendo estudantes. Os policiais civis afirmaram que o  índice de criminalidade naquela região é um dos mais baixos de toda cidade e que não há justificativa real para a sensação de insegurança. Um ano e meio depois, havia a possibilidade de  a escola encerrar suas atividades pelo Estado.
As reproduções discursivas destoantes da realidade estão em sintonia com outras vozes e discursos que disseminam estereótipos reproduzidos por programas policiais. Associações incoerentes entre “escola pública” e “crime organizado” se mostraram muito comuns, o que contribui com a sensação de insegurança e com o preconceito contra os mais pobres. O objetivo dos apresentadores era impulsionar o debate sobre a redução da maioridade penal durante a eleição de 2014.

 

Mas os educandos não foram as únicas vítimas da perseguição dos meios de comunicação. Os educadores das escolas públicas também sofrem um processo estereotipado de criminalização. Durante as  greves de 2014 e 2015, por exemplo, muitos jornalistas justificaram o uso da violência contra os professores. Um exemplo é o editorial do jornal O Estado de S. Paulo no dia 01 de maio de 2015, que remete ao massacre da PM contra os professores no Paraná. Intitulado “Lições de selvageria”, o artigo chamou os educadores de “violentos”, “baderneiros”, “vagabundos”,  “inimigos da democracia” e, sobre a carnificina da polícia contra os professores que chocou a  mídia internacional, o jornal se posicionou claramente: “A PM reagiu, como era seu dever”.

 

Como vimos, muitos meios de comunicação legitimam o uso da violência – e até mesmo o  desaparecimento de estudantes e professores de escolas públicas pela repressão policial – desde a  ditadura militar. Tal postura tem concordado com outros tipos de criminalização do exercício da docência, como é o caso do projeto “Escola sem partido”. No site do projeto, os professores são retratados como criminosos políticos que devem ser combatidos.

 

Na edição da revista Veja do dia 27 de julho de 2016, em artigo intitulado “Professor ganha mal?”,  escrito por Cláudio de Moura Castro, a imprensa utiliza uma série de dados questionáveis e inverídicos para defender a ideia de que o professor é um “oportunista vagabundo” que ganha bem para trabalhar pouco e se aposentar cedo. O professor é retratado como centro da corrupção no sistema público de ensino.

 

A justificativa para a criminalização midiática da educação pública reside, segundo Pierre Bourdieu, em seu trabalho de justiça social, que ele conceitua como “mão esquerda do Estado”, ou seja, profissões que buscam combater as desigualdades sociais impostas pelos mais ricos, a chamada “mão direita do Estado”. A mesma sociedade burguesa que defende uma educação pública  capaz de ofertar mão-de-obra para o trabalho, teme os efeitos da educação quando ela compromete o staus quo das relações de dominação. Os educadores enfrentam as “contradições que são o limite extremo daquelas que vivem todos os chamados ‘trabalhadores sociais’: assistentes sociais, magistrados e também, cada vez mais, docentes e professores primários”.

 

 

*Arthur Meucci é bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em educação pelo Mackenzie, psicanalista pelo IBCP (Sinpesp no 0889). Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa e editor da revista Espaço ética: educação, gestão e consumo.

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Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 122