A educação eurocêntrica

Por Arthur Meucci* | Foto: Shutetrstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Fui convidado para lecionar História da Educação e, como sempre, utilizei consagradas referências como Maria Lúcia de Arruda Aranha, Franco Cambi e Otaiza Romanelli. A História da Educação, pois é essencialmente interdisciplinar – depende da Sociologia e da Filosofia para atribuir sentido.

 

Porém, nos últimos meses minha amiga Luciane Lucas dos Santos apresentou uma bibliografia alternativa que aborda os conceitos de Colonialidade de Poder, concebida pelo peruano Aníbal Quijano, e Epistemologias do Sul, proposta pelos portugueses Boaventura de Souza Santos e Maria Paula Meneses. Elas me fizeram repensar a história da educação mundial e nacional, marcada por exagerado etnocentrismo.

 

O conceito de Colonialidade de Poder faz referência às estratégias discursivas de dominação, com profundo impacto na maneira como enxergamos a História, baseados na elaboração do conceito de raça, hierarquizando seus valores e ordens sociais mediante os padrões europeus de sociedade.

 

A educação pública laica

 

Os livros de História da Educação estão radicalmente inseridos na concepção eurocêntrica de sociedade. Os principais autores começam suas obras pela Grécia, justificando sua opção por meio do nascimento da Filosofia europeia – como suas contribuições pedagógicas eram limitadas, optou-se por discutir ideias e conceitos filosóficos que os gregos não aplicavam. Ignoraram sua inspiração no sistema de ensino dos egípcios e os avanços pedagógicos que antecederam os gregos, visto em civilizações asiáticas como Índia, China, Coreia e Japão – classificados como “antiguidade oriental” que precede a hegemonia grega do “Ocidente”.

 

Quando estabelecemos a história europeia como ponto de partida, matriz e referencial epistemológico, aceitamos uma estrutura hegemônica global de poder que nos impõe superioridades de raça, território, hierarquia e valores que subjugam países periféricos como o nosso. Mesmo as mais revolucionárias teorias pedagógicas socialistas servem como estratégias de colonização, impondo às realidades latino-americanas, dicotomias de esquerda e direita ou divisões de classes baseados em padrões econômicos e sociais europeus que transcendem nossa própria história, nossa vivência da realidade.

 

Nosso país foi estruturado na relação socioeconômica entre a Casa-grande e a Senzala, situação que gera uma divisão racial e social insolúvel pela óptica da teoria socialista. Qualquer História da Educação brasileira que utilize uma visão marxista da realidade, por mais justa que pretenda ser, nos insere em uma discriminação – pois o discurso marxista também pode ser hegemônico, redutor e excludente.

 

O segredo da filosofia oriental para a felicidade

 

A maior prova de que a História da Educação dominante foi estruturada dentro de um paradigma eurocêntrico e racista é a exclusão em seus relatos dos mais de mil anos de presença da civilização islâmica no continente europeu. Foram os árabes, e não a igreja medieval, que traduziram os textos clássicos dos pensadores gregos. A concepção de educação pública e obrigatória faz parte dos valores religiosos islâmicos, instituído pelo profeta Mohammed. As primeiras universidades do mundo surgiram no Oriente Médio, na Pérsia islâmica, e foram os árabes que levaram este modelo de educação para a Europa. Os primeiros cursos de formação de educadores também surgiram no mundo árabe, sem falar das contribuições nas áreas da Matemática, Astronomia, Artes e Arquitetura.

 

Apesar da importância do islã, os grandes manuais de História da Educação omitem sua existência. Fazem crer que todas essas contribuições foram criadas pelos europeus. Afinal, o islã não foi criado na Europa, não pertence à religião dominante e muitos educadores, pensadores e cientistas importantes do islã não eram brancos. A História da Educação se esquece de São João Damasceno (675-749), importante bispo católico que trouxe os livros e os métodos árabes de ensino para o núcleo da igreja católica, considerado um dos mais importantes doutores da igreja. Porém, por não ser europeu nem branco, caiu no ostracismo.

 

 

É de notório saber que os índios brasileiros conseguiram ensinar com grande competência seu idioma e seus mitos para os jesuítas e os colonos portugueses. Em contrapartida, as escolas dos jesuítas, considerada o início da Educação no País, não conseguiram ensinar português e latim com tanta competência. Por que excluíram os processos de ensino-aprendizagem adotados pelos indígenas brasileiros?

 

Outra barbaridade é a exclusão das contribuições pedagógicas e culturais africanas em nossa educação, que une conhecimento com música, dança e religião, utilizando uma trama semiótica ímpar e muito apreciada pela população. Porém, os historiadores consideram uma experiência “primitiva” e os comparam às civilizações “pré-gregas/europeias”. A educação africana tem inúmeros avanços que poderiam ser incorporados ao modelo eurocêntrico, como sua capacidade de sincretização com outras culturas e seu potencial criativo.

 

A educação indígena e africana poderia complementar nosso modelo europeu, criando assim um novo referencial epistemológico que resolva as nossas necessidades. Mas, infelizmente, todo modelo racial e centralizado de colonização e poder não permite concessões.

 

 

*Arthur Meucci é mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie. Membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor, psicanalista e editor da revista Espaço Ética: Educação, gestão e consumo. www.meucci.com.br

Adaptado do texto “A história eurocêntrica da Educação”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 118