A educação como objeto da Filosofia

Em Deleuze, é possível aplicar a Filosofia para pensar o problema da inclusão nas escolas, mas não de forma utilitária, pragmática, pois é próprio do filósofo uma repetição da reflexão, uma repetição da diferença

Por Felipe Figueira* | Fotos: Shutetrstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O modelo tradicional de escola (consequentemente, de sociedade ­tradicional), que estabelece ênfase na mera transmissão de conteúdos, mediante um grande verbalismo, não dá conta do “acidente”, do “diferente”. A razão é que nesse tipo de ensino/instituição há uma padronização da figura do aluno, a saber, enquanto alguém “normal” e com uma capacidade de memória “suficiente” para absorver os saberes transmitidos pelo professor. Dentro das escolas, a ideia de uno encontra-se dissociada da ideia de múltiplo. Para Gilles Deleuze (1925-1995), o múltiplo “(…) é a manifestação inseparável, a metamorfose essencial, o sintoma constante do único”. Disso decorre que a vida não é só “acerto”, mas é também “erro”. E mais do que erros e acertos, a vida é o que é.
Diante disso, é possível problematizar: não seria um erro o controle da vida por parte da técnica (leia-se: intervenção e imposição), na medida em que só se visa o “acerto”? Não seria, consequentemente, uma postura de “normalização”? Portocarrero afirma que o “exercício da normalização constrange sempre com o objetivo de homogeneizar as multiplicidades, permitindo medir distâncias, determinar níveis, fixar especialidades e tornar úteis as diferenças”.

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Para pensar como Deleuze, entretanto, torna-se necessário pensar contra a lógica moderna do “penso, logo existo”, por duas razões em especial:

 

  1. Para Deleuze, na senda aberta por Nietzsche (1844-1900), o pensamento não se separa da vida;
  2. O pensamento (o cogito) não é superior à vida e a vida não é serva do saber.

 

Friedrich Nietzsche

 

E devemos pensar, já no horizonte de Michel Foucault (1926-1984), contra a lógica mercadológica que em tudo vê ocasião para o lucro, também por duas razões:

 

  1. A racionalidade econômica diz que devemos investir em nós mesmos enquanto “capital humano”;
  2. Para esta lógica, o deficiente torna-se de alto custo e de baixo lucro (neste ponto destacamos que tal lógica até pode abranger e gostar da diferença, não enquanto um gosto da diferença do indivíduo, mas enquanto espaço para inovação econômica, para novos espaços de comércio; os deficientes passam a constituir um campo a ser colonizado).

 

Valores éticos em crise

 

 

O pensamento enquanto afirmação da vida

“Penso, logo existo”, afirmou Descartes (1596-1650) em seu Discurso do método, tendo no cogito a condição fundamental para a existência, condição esta que o levaria ao discernimento. Numa direção convergente, questionava Kant (1724-1804): o que é Aufklärung? E respondia: é o estado em que o homem sai da minoridade e passa à maioridade. Tal passagem aconteceria pelo viés não apenas do conhecimento – pois poderiam existir pessoas esclarecidas, porém “menores”, como seriam os eruditos (Gelehrter) –, mas também pela atitude. Todavia, sem formação (Bildung) não haveria esclarecimento (Aufklärung).
Hegel (1770-1831) acreditava que a razão e a liberdade (transcendental, por não se reduzir ao “aqui e agora”) eram os vetores do espírito, sendo que o movimento do espírito tendia inevitavelmente ao progresso. O que percebemos nessa tradição filosófica é a crença na superioridade do espírito, sendo que aqueles que não pensavam se tornavam ­fragmentos às margens da História, às margens do que “realmente importa”. Sob essas perspectivas, o esclarecido é o sábio, é o iluminado, é o sujeito livre, digno, igual, que conduz a humanidade – após certo tempo soltando das mãos da “criança”, evidentemente – ao progresso.

 

 
Numa linha diametralmente oposta, afirmava Schopenhauer (1788-1860) – ainda que considerasse a sua filosofia a culminação do projeto kantiano de crítica à razão – que o fundamento do mundo era a Vontade, sendo esta “cega” e sem qualquer destinação, finalidade, ao contrário do que pensava Hegel, que acreditava que o papel do filósofo era o de encaminhar a humanidade ao telos. ­Nietzsche, na senda aberta por Schopenhauer, afirmou que Descartes era “superficial”: “Mas a razão não passa de instrumento, e Descartes era superficial”.
Já Deleuze, em sua problematização acerca da diferença, afirmava que sob “(…) a imagem hegeliana do senhor é sempre o escravo que desponta”, o que equivale a dizer que os valores se encontram (ou se encontravam) de cabeça para baixo: o pensamento não se separa da vida, antes serve para afirmá-la. O pensamento não é a medida de todas as coisas. A consciência só chega depois que tudo está constituído. É possível viver a realidade do mundo sem consciência. Dirá Deleuze em Diferença e repetição que para pensar a esquizofrenia deve-se abolir a “imagem dogmática do pensamento”: “(…) a esquizofrenia não é somente um fato humano, mas uma possibilidade do pensamento que apenas se revela como tal na abolição da imagem”. E ainda dirá Deleuze: “Não há como fixar métodos, pois a vida não se deixa apreender por completo pela razão. E como se libertar de uma ‘imagem dogmática de pensamento’”? Será justamente essa questão o cerne da “transvaloração de todos os valores” ­nietzschiana, sendo possível problematizar que para se criar uma “nova imagem” seja necessário “(…) ser simples e honesto no pensamento e na vida”.

 

Deleuze a Guattari mexem com a imaginação visual

 

 

Inclusão versus espírito mercadológico

Inclusão não é apenas preparar para o trabalho. Inclusão não é submissão, “integração” às normas a que os “normais” estão submetidos. Incluir não pode ser pensado sob o viés da racionalidade econômica, mas a partir de uma concepção que não se restrinja a perdas e ganhos. É necessário questionar até a ideia de vitória na qual o indivíduo bem-sucedido se torna o sujeito de posses materiais. Segundo a lógica capitalista, mais importante que o ser é o ter. O burguês identifica o que é com o que tem e com o que consegue ampliar o patrimônio. O burguês não pergunta “quem és tu?”, mas “o que tu tens?” E na ânsia totalitarista do ter, o que não se torna “empresário de si” é culpado e tido como um fracassado, o que equivale a dizer que a responsabilidade da exclusão recai enquanto culpa do próprio excluído. Nas palavras de Michel Foucault contra o espírito neoliberal: “A sociedade regulada com base no mercado em que pensam os neoliberais é uma sociedade na qual o que deve constituir o princípio regulador não é tanto a troca das mercadorias, mas os mecanismos da concorrência. São esses mecanismos que devem ter o máximo de superfície e de espessura possível, que devem ocupar o maior volume possível na sociedade. Vale dizer que o que se procura obter não é uma sociedade submetida ao efeito-mercadoria, é uma sociedade submetida à dinâmica concorrencial. Não uma sociedade de supermercado, uma sociedade empresarial”.

 


Neste instante podemos visualizar um dos perigos da inclusão indiscriminada, na qual pode mais servir ao capital do que à inclusão propriamente dita: a diferença na diferença. Conforme dito na introdução deste texto, a lógica capitalista até pode abranger e gostar da diferença, mas não enquanto gosto da diferença do indivíduo, e sim enquanto espaço para inovação econômica, para novos espaços de comércio. Assim, “(…)aos poucos as falácias do neoliberalismo e da globalização vão sendo desveladas”.
Na medida em que os deficientes aprendem “mais lentamente” que os “normais”, tornam-se perda de tempo (leia-se: perda de dinheiro). O processo de formação mais se tornou um procedimento do que um processo, e mais se tornou algo externo do que uma vivência. Segundo Foucault: “O homo economicus é um empresário, e um empresário de si mesmo. Essa coisa é tão verdadeira que, praticamente, o objeto de todas as análises que fazem os neoliberais será substituir, a cada instante, o homo ecomomicus parceiro da troca por um homo economicus empresário de si mesmo, sendo ele próprio seu capital, sendo para si mesmo a fonte de sua renda”.

 


Os “pragmáticos”, nessa esteira, adoram parâmetros duros, imutáveis, não gostam de se colocar em questionamento, pois consideram a abertura algo desnecessário, uma perda de tempo, e nisso naturalizam o preconceito. Sob esse “pragmatismo” duvida-se inclusive que haja alguma necessidade de se oferecer educação para os deficientes, pressupondo que a educação formal seria inútil para tais indivíduos. O deficiente torna-se uma coisa, alguém que não poderia ser “empresário de si”. É por meio dessa mentalidade obtusa – de longa duração, fruto de uma hierarquização que separa o pensamento da vida – que diversas leis foram criadas, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, prevista na Constituição, sob a Lei no 4024/61: “Art. 30. Não poderá exercer função pública, nem ocupar emprego em sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público o pai de família ou responsável por criança em idade escolar sem fazer prova de matrícula desta, em estabelecimento de ensino, ou de que lhe está sendo ministrada educação no lar. Parágrafo único. Constituem casos de isenção, além de outros previstos em lei: a) comprovado estado de pobreza do pai ou responsável; b) insuficiência de escolas; c) matrícula encerrada; d) doença ou anomalia grave da criança (grifo do autor)”.

 


Tal artigo, por sua vez, é muito semelhante ao artigo 3o de uma lei provincial do Rio de Janeiro, a Lei no 1 de dois de janeiro de 1837: “São proibidos de frequentar as escolas públicas: 1o: todas as pessoas que padecerem de moléstias contagiosas; 2o: os escravos e os pretos africanos, ainda que sejam livres ou libertos”.
Diante desses problemas, dirá Carlos Cury: “Desse modo, o estatuto da escravatura, tacitamente acolhido, tem, por abjeto que seja, o outro como objeto, propriedade, mercadoria”. E poderíamos estender esse raciocínio ao seguinte horizonte: o lugar do “certo” é o topo de pirâmide e o do “erro”, na base. Mas o que se tem por certo é mesmo certo? Ensino regular versus escolas especiais? O que quer aquele que procura manter a hierarquização? Furtar-se a esse tipo de questão se torna uma atitude antifilosófica: os maiores problemas que nós temos são os valores preestabelecidos, e as “experiências” muitas vezes não criam valores. O mais difícil é romper com as imagens de formação.

 


É perigoso o raciocínio segregador centrado na deficiência. É preciso verificar as potencialidades dos indivíduos com deficiências. Dizer que alguém “não consegue fazer nada”, em razão de uma limitação física e/ou intelectual, é limitar a vida, pois o nada, no caso, torna-se muita coisa. Muitas pessoas, diante de alguém sem oralidade, a tratam como surda e infantil e tiram seu direito de escolha…
Deficiência não é doença, saúde não é ausência de doença, e a pessoa deficiente pode ser saudável e autônoma. Tal ideia coloca em xeque, a um só tempo, tanto a separação entre pensamento e vida quanto a racionalidade econômica que não vê no deficiente um “empresário de si”: e uma nova forma de conceber a Educação gera uma nova forma de conceber o humano. Um “louco” pode ser portador da razão, como no caso do “louco” da epígrafe deste texto, que anuncia que Deus está morto, o que equivale a dizer que a imagem de paradigma único foi derribada.

 

Linguagem, um facilitador

O que alguns veem como limitação, como algo apenas negativo, outros veem como condição de possibilidade para que algo exista, portanto algo afirmativo. Na medida em que há uma superação da hierarquização entre pensamento e vida, é possível chegar à seguinte lógica:

 

  1. Existem as vivências, e isso é o que há de mais fundamental;
  2. Existem pessoas a pensar as vivências, o que já é algo tardio;
  3. Existem pessoas a pensar o pensamento (no caso, os eruditos, que acabam “sabendo muito” dos outros, mas de si pouco sabem, porque pouco vivem).

 

 

Intolerância e inclusão social

Disso resulta que para a Linguagem poder abarcar todo o mundo, ela deveria ser uma duplicação do próprio mundo, o que é impossível, pois a Linguagem é uma simplificação do mundo: ela simplifica o mais complexo, que são as vivências, a pluralidade. A definição não é equivalente à coisa. A função mais elevada da Linguagem é a de facilitar a vida, e “apenas” isso. Daí a seriedade das seguintes questões que se impõem como desafios à escola:

 

  1. Como garantir o acesso à comunicação para as crianças e jovens com deficiência na fala?
  2. Como ensinar as crianças com deficiência, sem o uso da linguagem falada, a ler e a escrever? A partir disso, é possível problematizar: se a escola (e neste caso a sociedade não se separa da escola) não consegue abarcar o mais simples, que é o que há de mais fundamental, como poderá abarcar o mais complexo?

 

 

Os deficientes nos ensinam, muitas vezes, a simplicidade, o que nos leva a uma “nova imagem do pensamento”. Ser simples é dar uma explicação mais direta das coisas, é não mascarar a vida, é agir e pensar, mesmo que tudo isso não habite na consciência. Os deficientes podem até não ser empreendedores de si, mas isso não implica que vivam mal, que não tenham qualidade de vida, pois uma coisa não tem relação com a outra. O que eles têm é um modo de vida completamente outro, que não pode ser lido e esquadrinhado sob o viés da padronização, da normatização, enfim, sob o viés da lógica que separa o pensamento da vida.

 

 

 

*Felipe Figueira é professor do IFPR (Campus Paranavaí). É líder do Grupo de Pesquisa Bildung e doutorando em Educação pela UNESP-Marília.

Adaptado do texto “Para uma nova imagem de inclusão”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 97