A democracia teve dois antagonistas – a monarquia e a aristocracia

Lembro Churchill: a democracia é o pior regime que existe, depois de todos os outros. Como já analisei em outro lugar, a democracia não é um “bom” regime. É apenas o menos ruim. Nele todos são iguais em direitos, inclusive no voto: portanto, a maioria decide. Pode decidir de maneira desastrosa. Mas é menos ruim porque reduz a prepotência, o abuso. Basta ver que o Brasil melhorou incrivelmente seu IDH no período democrático, desde 1985.

A democracia teve, por milênios, dois antagonistas – a monarquia e a aristocracia. Aristocracia quer dizer governo dos melhores. O problema é: como identificá-los? Na teoria, por um concurso. A China compunha sua burocracia com mandarins, escolhidos em exames puxados. Na prática, acaba sendo por hereditariedade ou cooptação. Muito difícil saber quem é melhor. Sobretudo porque o corpo político não toma decisões técnicas, em que só há um caminho viável, mas políticas, que podem ir para um lado ou outro.

(Dica para saber se temos uma democracia: quando se aceita que dois partidos opostos possam governar. Geralmente um mais liberal, um mais socialista. Mas os dois com lideranças honestas e competentes. Quando uma campanha diz que só um lado é honesto e/ ou competente, de duas uma: ou a campanha é mentirosa, ou a democracia é frágil).

E chegamos ao Brasil atual. Aqui tudo, na política, gira hoje em torno da economia. Foi o que levou à impopularidade e afastamento da presidente Dilma. Foi o que levou o vice-presidente a formar um governo cuja qualidade está só na economia. Outras dimensões foram deixadas de lado, já pelos cortes no orçamento que ela fez, já pela qualidade dos ministros que ele escolheu. Mas qual o problema da economia com a democracia?

Primeiro, o discurso da Economia é de difícil compreensão. Como pode o eleitor – que na democracia é um homem sem qualidades, alguém que não precisa ter formação intelectual ou nada disso, porque o que lhe pedem são escolhas de valores e não de competências – entender esse discurso? Nem quem escreve Filosofia, que é difícil como o diabo, compreende sempre a Economia. Escolhas democráticas de política econômica parecem o povo de Atenas elegendo generais: tudo isso é técnico demais para uma decisão política.

Segundo, a tendência da maior parte dos economistas é afirmar uma única verdade, chova ou faça sol. Para a maioria, reduzir o papel do Estado é a solução – em qualquer caso! Para uma minoria, o inverso. E isso, não importando a conjuntura. Ora, o mantra número 1 da Filosofia Política deve ser a conclusão de Maquiavel no Príncipe: o líder deve agir considerando a conjuntura. O bom líder é o que sabe ser afoito ou cauteloso – estatista ou privatista, eu diria em economês – conforme a situação. Isso é raro entre os economistas.

Terceiro, eles não respondem pelo que fazem. Se uma política ortodoxa der toda errada, seu responsável apenas dirá: faltou. Precisava fazer mais. O mesmo vale para uma política heterodoxa. De modo que os economistas em certas épocas têm um poder político enorme, mas não respondem pelo uso ou abuso dele. Não sei se já falei do cavalo do inglês, a história de um excêntrico que decidiu criar seu animal sem lhe dar comida. E depois lamentou: “Quando estava tudo dando certo, e fazia meses que ele não comia, infelizmente ele morreu”. Ministros da Economia raramente prestam contas ou pagam por seus erros.

 

 

 

Renato Janine Ribeiro é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

 

 

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 120

 

 

 

 

 

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