A dualidade divina

Por Flávio Ricardo Vassoler* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Agostinho de Hipona, o santo que, antes da conversão, gostava de tomar vinho (o sangue de Cristo) usando as sapatilhas das cortesãs como cálice – ó Senhor, afasta de mim este cálice; Senhor, faça-me casto! (Mas não esta noite…) –, lança mão de seu ardor (outrora intumescido) para investigar as profundas contradições envolvendo a existência de um Deus onipotente, onisciente, onipresente e sumamente bom e o mundo por Ele criado cuja história é transpassada pelo mal.

 

“[…] Quem me criou? Não foi o meu Deus, que é bom, e é também a mesma bondade? De onde me veio, então, o querer eu o mal e não querer o bem? Seria para que houvesse motivo de eu ser justamente castigado? Quem colocou em mim e quem semeou em mim este viveiro de amarguras, sendo eu inteira criação do meu Deus tão amoroso? Se foi o demônio quem me criou, de onde é que ele veio? E se, por uma decisão de sua vontade perversa, se transformou de anjo bom em demônio, qual é a origem daquela vontade má com que se mudou em diabo, tendo sido criado anjo perfeito por um Criador tão bom?”.

 

A argumentação de Ivan Karamázov, personagem de Dostoiévski, sobre o mal incriado, como não poderia deixar de ser, se aproxima da tradição de investigação sobre as origens do mal que Agostinho tanto perscruta. Se o mal existe e se todas as coisas foram criadas por Deus, o Criador contém em si o mal e não pode ser sumamente bom. Eis o motivo fundamental pelo qual Ivan não nega Deus, mas o mundo por Ele criado – colocação que, levada às últimas consequências, tende à negação de Deus. Afinal, o Criador permaneceria o Criador se não houvesse suas criaturas?

 

Ocorre que a argumentação de Ivan é capciosa. Atribui-se a Ivan a máxima “se Deus não existe, tudo é permitido”. Mas, ainda uma vez, se levarmos às últimas consequências o ateísmo de Ivan, será preciso dizer que, “se Deus não existe e tudo é permitido” [grifo de Agostinho], Deus pode voltar a existir para além das aporias que Lhe atribuem a origem do mal. É como se Agostinho dissesse que, uma vez investigadas as causas da decadência dos homens e mulheres, seria possível haver uma nova aurora de Deus – lembremo-nos de que Ivan não nega Deus, mas o mundo por Ele criado.

 

É assim que Agostinho começa a dissecar o mal como uma não-substância – o mal como o inexistente, isto é, o transitório. Acompanhemos os momentos de constituição do pensamento agostiniano: “[…] Todas as coisas que se corrompem são boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e, se não tivessem nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse”.

 

Agostinho estabelece uma gradação entre o que é sumamente bom (Deus) e o que é bom (a criação). Nesse momento, já podemos mencionar uma profunda clivagem que viria a se instalar no pensamento teológico. A tradição católico-protestante tende a interpretar tal gradação como algo insuperável, apesar de Cristo ter dito: “Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses?”. A tradição espírita – a bem dizer, a tradição reencarnacionista, que transcende o cristianismo e dialoga, por exemplo, com o hinduísmo e o budismo – apreende um movimento do que é bom para o que é sumamente bom. O que é bom conteria em si a potência daquilo que já é sumamente bom em ato.

 

Quando consideramos que há uma hierarquia intransponível entre o Criador e as criaturas, a suma bondade se vê emparedada. Por que a suma bondade poderia ser vivenciada apenas por Deus? Por que os homens e as mulheres que, segundo a tradição judaica, foram criados à imagem e à semelhança de Deus, não poderiam partilhar com o Criador a suma bondade? Deus seria sumamente bondoso se não quisesse partilhar o ápice de sua divindade com as suas criaturas?

 

Católicos e protestantes, em seus diversos matizes, poderiam falar sobre o pecado original, sobre o mal transmitido de geração para geração a partir da queda de Adão e Eva. Mas, ao dialogarmos com Ivan ­Karamázov, percebemos que tal argumentação pecaminosa não consegue romper com a tautologia que Agostinho quer superar. Ainda que os homens padeçam por conta de seus ancestrais imemoriais – e o raciocínio escatológico de Ivan nos leva a rejeitar tal pensamento, uma vez que as criancinhas, inocentes em sua concepção, não tiveram tempo para discernir entre o bem e o mal e, nesse sentido, não poderiam padecer por conta dos sofrimentos terrestres –, o mal cometido pelos homens e mulheres, de uma forma ou de outra, seria oriundo de Deus, do Criador. Católicos e protestantes poderiam falar sobre o livre-arbítrio, sobre a escolha que Adão e Eva fizeram entre o bem e o mal. Mas, ora, para que nossos ancestrais míticos pudessem escolher entre o bem e o mal, tanto o bem quanto o mal tinham que possuir substância, isto é, tanto o bem quanto o mal precisavam existir. Se ambos existiam, ambos provinham do Criador. Assim, o mal teria sua origem em Deus. Vemos, então, que a tradição católico-protestante condena os homens e mulheres – o mundo criado por Deus, para lançarmos mão da imagem karamazoviana –, mas, essencialmente, o Deus onipotente e onisciente não se apresenta como uma divindade sumamente boa.

 

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Adaptado do texto “A dualidade divina”

*Flávio Ricardo Vassoler é escritor, professor universitário e autor de Tiro de misericórdia (Editora nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos, 2013) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios, 2012). Doutorando em Teoria Literária pela FFLCH-USP. O artigo, na íntegra e sem edições, está no blog Portal Heráclito http://www.portalheraclito.com.br