A (des)humanização do parto

Por Arthur Meucci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Acredito que não há nada tão pertinente para a primeira coluna do ano do que o nascimento de uma nova vida, de um novo ser humano que vem ao mundo. Mas, no Brasil, um país violento em todos os sentidos, esse momento tão especial não foi poupado da brutalidade. Aqui, a gravidez virou doença, um lucrativo mercado de remédios e cirurgias desnecessárias. Para piorar, as agressões cometidas pelos médicos e hospitais contra as mulheres e seus bebês são, constantemente, legitimados por uma ciência da saúde tupiniquim muito questionável.

 

Essa discussão começou em novembro de 2013, quando o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, sancionou uma lei obrigando a rede pública municipal a oferecer anestesia durante o parto natural ou disponibilizar o parto humanizado. Os governos de esquerda têm comprado essa briga desde 2003, quando o ex-presidente Lula criou o projeto HumanizaSUS. O parto vaginal, que, na maioria dos países, é um procedimento padrão, precisou ser garantido por lei por causa de resistências na área médica. O Brasil é o país que mais faz cirurgias cesarianas no mundo, segundo os dados do Ministério da Saúde, sendo 52,2% de todos os partos realizados. A rede pública realiza 31% das cesarianas, e os hospitais particulares, 80% – a ­Organização Mundial da Saúde (OMS) estipula que esse número deve ficar entre 7% e 10% e que não pode ultrapassar a marca dos 15%. A cesariana é um procedimento cirúrgico que só deve ser utilizado quando a mãe e o bebê correm risco de vida, pois produz traumas físicos e emocionais para ambos.

 

A justificativa dos nossos médicos é de que a cesariana se tornou o procedimento mais seguro para a mãe em razão de evitar a dor, a morte por eclampse, a laceração da vagina, infecções e possíveis traumas cranianos e de clavícula, quando o bebê pesa mais que quatro quilos. Ela se apresenta como a opção mais avançada em termos médicos.
Porém, os manuais de obstetrícia afirmam que todos esses problemas só acontecem quando há uma sucessão de erros médicos, desde o pré-natal até o parto. O médico que faz o pré-natal nem sempre é o mesmo que faz o parto. Poupando os casos de risco, a escolha pela cirurgia é um atestado de incompetência médica.

 

Mas, se há tantos problemas ligados à cesariana, quais são os motivos que levam os médicos a adotarem esse procedimento? Por que não mudam? A resposta para essas perguntas se resume ao dinheiro. Um parto natural ou humanizado leva cerca de 10 a 16 horas na primeira gestação. Logo, necessita que o centro cirúrgico e uma equipe de médicos fiquem à disposição da gestante – o que toma tempo. Já a cesariana é um procedimento que pode ser agendado e leva, em média, 40 minutos, ou seja, possibilita fazer partos em série. Os valores se invertem, o tempo mais importante passa a ser o do médico, e não o do bebê. Por ser uma cirurgia, é a opção mais cara e lucrativa para os médicos e para o hospital. Do ponto de vista econômico, é um bom negócio.

 

A maioria dos ginecologistas e pediatras brasileiros, responsáveis pelo pré-natal e pelo parto, possui um discurso sutil de terror, que afeta o julgamento da mãe e dos familiares sobre sua capacidade natural de ter um filho. Questionam a oferta de nutrientes para o bebê e prescrevem, de início, uma série de vitaminas para gestantes, como se uma mãe, que pode comprar esses caros suplementos, não pudesse fornecer naturalmente. Pedem inúmeros exames de sangue, em especial a desconfortável curva glicêmica, com regularidade. Do nada, a jovem mãe está constantemente ameaçada pela diabete gestacional. Os inchaços, comuns na gravidez, viram sintoma de pressão alta e de uma possível eclampse. Quando o bebê passa dos três quilos e meio no ultrassom, surge o terrível diagnóstico: a mãe tem que fazer uma cesárea, pois o bebê ficou grande.

 

Existem vários relatos, na obstetrícia, de partos naturais bem-sucedidos, com bebês que pesavam mais que quatro quilos, sem dores anormais ou complicações para a mãe. Todo o ritual e o discurso do pré-natal são feitos para coagir as mulheres a aceitar a cirurgia. Surge uma ciência médica deturpada, que serve como instrumento de dominação.

 

Se a mulher resistir às pressões dos médicos e insistir no parto natural, colocam-na sozinha no quarto tendo contrações. Os hospitais utilizam a sensação de desamparo como tortura psicológica de coação e usam, como justificativa profilática, os “germes”. Por esse motivo, o parto humanizado permite que o pai e a doula fiquem com a mãe durante todo o processo. Durante o parto natural, o médico pode utilizar uma cirurgia vil para acelerar o processo: a episiotomia – corte na lateral da vagina, em direção ao ânus, para dilacerar músculos e nervos, garantindo maior abertura e a saída mais rápida do bebê. Não preciso descrever como esse procedimento é terrível para a mulher, nem explicar por que ela é aceita e praticada, regularmente, em nosso país.

 

Em posse do discurso da ciência médica, médicos e hospitais mal-intencionados tentam justificar a violência obstétrica (uma entre quatro mulheres sofre violência no parto). A ética foi substituída pelo lucro pragmático, a humanidade das pessoas perdeu lugar para a lógica da produção de coisas. A indústria do parto é uma abominação, e a conivência das autoridades brasileiras, um absurdo surreal.

 

*Arthur Meucci é mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e história da Cultura pelo Mackenzie e membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor conferencista da ECA/USP e do curso de Ética e Meio Ambiente do PEC/FGV-SP e consultor do Espaço Ética.
www.meucci.com.br

Adaptado do texto “A (des-) humanização do parto”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 90