A descoberta dos neurônios espelho

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Há poucos dias revi um TED Talk do neurocientista indo-americano Vilayanur Ramachandran. Ele falava, com grande entusiasmo, da descoberta dos neurônios espelho, um grupo de células que são ativadas quando alguém
realiza ações específicas ou percebe a mesma ação sendo realizada por outro. Esses neurônios foram chamados de “espelho”, pois eles permitem entender as ações de outras pessoas por meio de sua identificação e simulação. Em outras palavras, tudo se passa como se, com esses neurônios, fosse possível sempre detectar quando uma pessoa está agindo, colocar-se no lugar dela e, com isso, compreender suas intenções e desejos.

 

Ramachandran afirmava que a descoberta dessas células seria, para a Neurociência, tão importante quanto foi o DNA para a Biologia, pois como por meio delas é possível identificar e compreender os desejos e as intenções dos outros, elas são a chave para entender como se formou a empatia e, em seguida, a sociabilidade. Inversamente, seu mau funcionamento seria a explicação para transtornos nos quais a empatia desaparece como, por exemplo, no autismo.

 

Diz uma lenda que os neurônios espelho foram descobertos por acaso, no laboratório de Giacomo Rizzolatti em Parma, na Itália. Na ocasião, os pesquisadores estavam registrando os sinais que vinham de microelétrodos inseridos no córtex motor do cérebro de um primata com o objetivo de identificar os neurônios responsáveis pelo planejamento do movimento. Na hora do almoço, os pesquisadores decidiram não sair e comer no próprio laboratório e, por isso, não desligaram os microelétrodos. Quando começaram a comer, verificaram que esses microelétrodos entraram em ação, mostrando que estava ocorrendo uma ativação nos neurônios motores do primata. O primata não estava se movendo, mas apenas observando as ações das pessoas. Eles resolveram repetir a situação e observar o comportamento desses neurônios quando o primata observava alguém executando alguma ação. Como eles sempre disparavam, concluíram, então, que estavam diante de uma classe especial de neurônios.

 

Segundo Rizzolatti, esses neurônios identificam não apenas o movimento, mas as intenções dos outros. Em resposta a muitas objeções, ele e Vittorio Gallese sustentam que devemos modificar nossa percepção habitual das relações entre movimento e intenção. Para isso, eles recorrem à Filosofia de Merleau-Ponty, na qual o movimento (o gesto) deve ser visto como intrinsecamente intencional. Não há uma atribuição de intenção posterior ao movimento, pois ele já é, ao mesmo tempo, a expressão da intenção.

 

Penso que um experimento crucial, que poderia esclarecer até que ponto neurônios espelho detectam intenções e não apenas movimentos, seria expor primatas a robôs manipulando objetos próximos. Nesse caso, os neurônios espelho deveriam apresentar alguma diferença ao disparar, pois os robôs, supostamente, não têm intenções. Desconheço se esse experimento já foi realizado. Qual é o status quo da teoria dos neurônios espelho hoje em dia? Desde sua descoberta, uma avalanche de congressos, artigos e livros inundou a Neurociência. No entanto, alguns problemas com essa teoria, inicialmente considerada tão promissora, já começam a aparecer.

 

Uma das dificuldades apontadas é o fato de que podemos compreender a ação de alguns animais como, por exemplo, o voo de um pássaro, sem sermos capazes de simulá-lo, pois não compreendemos seu mecanismo. Não temos como nos colocar no lugar de um pássaro. O repertório de ações que os seres humanos podem imitar é restrito, sobretudo quando o comparamos com o comportamento específico de vários animais. Nesse caso, não precisamos de neurônios espelho para compreendê-los, e isso deve ser feito, provavelmente, por outros tipos de neurônios no cérebro.

 

 

Imagine agora uma situação na qual você foi convidado a fazer um passeio na selva amazônica. Subitamente, um animal que você nunca viu antes começa a correr e se mover em sua direção. Se você tivesse que, primeiramente, simular em seu cérebro a ação desse animal para depois projetar suas intenções, provavelmente não teria tempo de escapar dele. Fugir de predadores é, então, algo que não depende de neurônios espelho. Ao contrário, eles prejudicariam nossa capacidade de sobrevivência e adaptação e, por isso, não haveria razão para eles terem sido selecionados no processo evolucionário, que levou ao cérebro humano. A simulação só pode ocorrer se o resultado for previsível. Mas, nesse caso, para que ela serve?

 

No entanto, é preciso considerar que os neurônios espelho ajudam a explicar muitos comportamentos humanos. Por que, às vezes, torcemos desesperadamente pela vitória de um time de futebol? Não é como se estivéssemos o tempo todo na pele dos jogadores e querendo que eles façam os passes certos? A compaixão que sentimos por uma pessoa que está ferida ou doente também nos remete à ideia de que há algo que faz que nos identifiquemos, mesmo que apenas momentaneamente, com outra pessoa.

 

Houve uma época na qual os neurônios espelho foram apelidados de “neurônios Dalai Lama” por referência à importância da compaixão que o líder espiritual tibetano pregava. Sem empatia, a compaixão não seria possível. Tampouco a ética seria possível sem compaixão. Mas será que podemos atribuir tudo isso aos neurônios espelho?

 

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

www.filosofiadamente.org

Adaptado do texto “Neurônios espelho”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 110