A corrupção noticiada na mídia

Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Em época de eleição o assunto principal é a política e, para a mídia coxinha, política é associada a corrupção. Um absurdo conceitual, pois a corrupção (corruptio, quebra da unidade, deterioração) é o oposto de política (politikos, associação de cidadãos). A politicagem agrega pessoas para um bem comum, já a corrupção desune os laços na tentativa de auferir vantagens pessoais.

 

Esse assunto se torna midiático pelo simples fato de se tornar um instrumento político de coação por parte dos donos da imprensa e por interessar às pessoas. É um tema muito interessante de ser analisado, pois os atos de corrupção produzem nos cidadãos um misto de nojo e de sedução, de repulsa e de uma secreta inveja.

 

Sim, a corrupção nos seduz muito. É por isso que tanto se fala dela nos jornais e nos espaços públicos. O enriquecimento fácil faz apelo a um imaginário compartilhado. Curtido em narrativas ficcionais e jornalísticas a que estamos todos expostos, a simples menção da palavra faz lembrar de alguém que enriqueceu subitamente. Já estava bem e enriqueceu ainda mais, sem muito esforço ou tempo de espera.

 

A palavra corrupção também muitas vezes nos faz lembrar a palavra crime. Porém, não é qualquer ilegalidade. Nessa prática a violência física dá lugar à astúcia, à sagacidade, ao jeitinho malandro. Assim, o corrupto é um bandido. Mas não um bandido qualquer, pois não apela para o uso de armas. A corrupção também não está associada com um reles batedor de carteiras, com pequenos furtos ou migalhas, com a mera sobrevivência. Seus executores não estão preocupados em satisfazer as necessidades básicas ou matar a fome.

 

Quando se imagina uma relação de corrupção o que vem à mente são grandes fortunas, carros de luxo, helicópteros e bacanais com champanhes e modelos. Uma ilicitude classe A. O corrupto já está bem posicionado, pois é alguém que à luz do dia faz a figura de bem-sucedido, bem vestido e apresentável, com cargos importantes, e, na calada da noite, apresenta-se como um lobo.

 

Com poder para decidir e que opta por satisfazer seus próprios interesses. Esse imaginário é ricamente abastecido pela ficção midiática. Como não se deixar seduzir por alguém que arrisca o que já tem em nome de tudo o que ainda falta? O corrupto é necessariamente ambicioso e, portanto, destemido ao agir. Corajoso, ousado, que não se contenta com pouco. Figura que destoa de tantas que gravitam à nossa volta aferradas a não perder o pouco que tanto lhes custou obter. Não por acaso, os meios de comunicação emprestam aos atos de corrupção muitas páginas, muitos segundos de suas pautas.

 

Em contrapartida, tantas coisas que acontecem e que jamais merecerão a atenção dos editorialistas. Cedem invariavelmente seu turno na ribalta noticiosa aos mais atrevidos. Mesmo quando os procedimentos se repetem e não há na conduta de corruptores e corruptos grande surpresa ou originalidade, sempre serão merecedores de destaque. Os critérios de noticiabilidade lhes assegura o holofote. Páginas de jornais e segundos de imagem exposta.

 

Toda essa lógica macabra tem uma razão: a corrupção vende. Seja porque o corrupto não é qualquer um e, portanto, tem sempre uma pitada de pop star, seja porque, ao serem pilhados, corruptores e corruptos se convertem em bodes expiatórios. Expurgam os males de um coletivo, encenam por suas mazelas que a vida honesta escolhida ou resignadamente aceita dos receptores não é tão ruim assim. Afinal de contas, poderia ser pior: vexame do achincalhe público, privação de liberdade, desonra de toda a família.

 

Seguindo a perspectiva da narrativa espetáculo, há que mencionar os justiceiros. Afinal, o desenlace de um caso de corrupção quase sempre implica uma investigação. Uma operação por parte da polícia. E essa operação muitas vezes vem batizada com apelação atrativa, um nome forte, reúne numa só palavra uma série de procedimentos de significação complexa para leigos. Operação Condor ou operação Cavalo de Troia – esses nomes conferem a intervenções dispersas e nem sempre bem-sucedidas uma aparência de unidade, de coerência interna e de eficácia. Simplificações que dispensam a cada notícia a repetição enfadonha do caso, do ilícito investigado, dos envolvidos etc. Golpe simbólico particularmente necessário nos momentos iniciais da investigação, quando a fragilidade das pistas perseguidas faria crer em inoperância e fracasso.

 

Toda investigação é um processo que tira da sombra, do sigilo, do desconhecimento de quase todos e joga luz, esclarecendo os fatos. Esse movimento de converter o sigiloso em conhecido, de jogar luz sobre o que era obscuro, faz parte de toda narrativa de corrupção. E aqui o apelo à ficção, à Literatura, ao cinema policial, às grandes narrativas ficcionais torna o desenlace de um ato de corrupção um grande espetáculo. Um espetáculo a ser consumido ao longo do enfado do cotidiano diário.

 

Nesse cenário teatral e espetacular, a palavra corrupção é repetida diariamente, consagrando um sentido em detrimento daquele mais próximo de suas raízes. Na dinâmica das ressignificações, na luta social e política pela definição do verdadeiro sentido dos conceitos, por vezes somos condenados a ignorar a história dos significados das palavras. O que lhes retira muito de potência na hora de explicar as ocorrências do mundo.

 

*Clovis de Barros Filho é professor de Ética da ECA-USP e conferencista de Espaço Ética.

www.espacoetica.com.br

Adaptado do texto “A corrupção e o discurso midiático”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 97