A Copa foi para todos?

Um olhar atento para a Copa do Mundo de 2014 a partir do caráter conservador das revoluções burguesas ocorridas ao longo da História do Brasil, que não culminaram no desenvolvimento da nação e do povo por meio de um ímpeto revolucionário e transformador

Por Vitor Bartoletti Sartori* | Fotos: Shutterstock / Wikimedia | Adaptação web Caroline Svitras

 

O cotidiano, diz o marxista húngaro György Lukács (1895-1971), é constituído a partir do modo como se concatena o acontecer social, de tal feita que, mesmo ao abordar as questões mais prosaicas, está-se diante de algo que depende do devir contraditório da sociedade como um todo. Karl Marx (1818-1883), autor no qual se inspira Lukács, também não deixou de destacar, no mesmo sentido, em seu A miséria da Filosofia: “A história nada mais é do que a constante transformação da natureza humana”. Em seu A ideologia alemã, o autor não deixa de destacar que a “natureza humana”, caso tenha algum sentido, deve ser considerada como “um conjunto de relações sociais”. Ou seja, o que parece evidente e dotado de um caráter “natural”, muitas vezes, é somente pensável em determinadas circunstâncias sociais, sendo preciso tê-las em conta.
Esse aspecto, destacado por Marx e por Lukács, mas também, de um modo distinto, por autores como Henri Lefebvre (1901-1991) e Martin Heidegger (1889-1976), permeia, de certo modo, a Filosofia do século XX, que, na esteira de Georg Hegel (1770-1831), não deixou de ter por central a relação entre aquilo que se apresenta de imediato (grosso modo, o fenômeno) e aquilo que dá peculiaridade a algo (também grosso modo, a essência). Ou seja, pode-se dizer que este aspecto espontâneo, “natural”, evidente e “inquestionável” do cotidiano não deixou de interessar aos mais distintos autores. Eles pensaram as questões filosóficas, também, como questões sociais.

 


É interessante destacar que, depois de Hegel, por um momento, na figura da Filosofia marxista, pareceu que a questão pudesse ser resolvida favoravelmente à apreensão reta da especificidade das coisas. Isso se deu em um contexto em que, nas palavras de Marx e Engels, “tudo que é sólido desmancha-se no ar, tudo que é sagrado é profano”, sendo os homens “por fim compelidos a enfrentar de modo ­sensato suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhantes”. A transformação das condições de vida foi também a esperança que moveu a crença na possibilidade de compreender a complexidade daquilo que, somente na medida não poderia ser, parecia ser evidente, natural e mesmo “lógico”. Uma passagem de Marx, que procurou a compreensão das coisas na medida mesma em que acreditava poder transformá-las, pode ser elucidativa sobre esse ímpeto: “A figura do processo social da vida, isto é, do processo da produção material, apenas se desprenderá do seu véu místico quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob seu controle consciente e planejado”. Ou seja, houve um momento em que – justamente por se acreditar que, afinal, são os homens que fazem sua própria história – a “natureza humana” e a “natureza das coisas” foram expressões vistas com desconfiança na medida em que deixavam de lado o essencial, o processo histórico e social pelo qual aquilo que “é” se tornou “o que é”.

 

 

O nacional e a emergência da burguesia

O momento em que os homens se unem com uma identificação nacional, por exemplo, é visto atualmente como prosaico, parece mesmo fazer parte do cotidiano contemporâneo. Nada mais “lógico” àquele nascido no Brasil que apoiar a seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo! E mais, a seleção de futebol, “naturalmente”, passa a se apresentar no cotidiano como “O Brasil”! Essa equação, não é preciso dizer, é muito mais complexa do que supomos em nossa cotidianidade, e deve ser vista tendo em conta o mencionado anteriormente, que, agora, aparecerá em um grau maior de concretude.

 

O “jeitinho brasileiro” explicado pela filosofia

Cotidianamente, até mesmo para que o convívio social em determinada sociedade seja possível, alguns aspectos são eclipsados. Somente alguém extravagante compreenderia o “Olá, tudo bem?” de modo literal, revelando tudo aquilo que não vai bem em sua vida. Ou seja, como mostrou convincentemente György Lukács em sua Estética, a própria estrutura do cotidiano não é nada simples, sendo preciso cuidado ao tratar do tema. Diz o autor húngaro que, na medida em que o “essencial do ser e do pensar cotidianos [é] a unidade imediata da teoria e da prática”, há “um ramificado, múltiplo e complicado sistema de mediações que se complica e ramifica cada vez mais no curso da evolução social”. Tratar daquilo de mais prosaico é, pois, também tratar das mediações sociais mencionadas, que, no caso do nacionalismo, precisam ser explicadas com algumas referências. É bom ter isso em conta.
A principal dessas referências ainda é, certamente, a Revolução Francesa, na qual, como aponta o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012), aparecem de modo prototípico os delineamentos essenciais da politicidade contemporânea. Ao tratar deste grande evento e ao relacioná-lo com a Assembleia Legislativa, diz Hobsbawm sobre a conformação de um regime que claramente expressava a hegemonia da burguesia, então em sua aurora:

“Oficialmente esse regime expressaria não apenas o interesse de classe, mas também a vontade geral do ‘povo’, que era por sua vez (uma significativa identificação) ‘a nação francesa’”. O povo e a nação aparecem juntos, pois.

 

“Tecido social inclusivo”

Isto só se deu na medida em que a essência do regime instaurado (seu caráter, segundo Hobsbawm, burguês) parece não ser o principal. É verdade que o ímpeto revolucionário da revolução fora também aquele da nação e do povo (noção esta que, durante a revolução, é bom que se destaque, nem sempre incluiu os pobres); é mesmo preciso que se diga que um historiador como Albert Soboul (1914-1982) buscou explicitar esta relação entre povo, nação e burguesia nos seguintes termos: “A propriedade constitui o fundamento da ordem social”. Se é verdade que, como aponta Lukács, “a Revolução Francesa pôs a tensão entre o citoyen e bourgeois no seio do povo livre”, isso só se deu na medida em que ela se enxergou como uma revolução em prol da cidadania, na medida mesma em que esta última trouxe consigo o domínio e a hegemonia de uma classe social, na época, revolucionária: a burguesia. A nação e o povo, pois, é preciso que se diga, na Revolução Francesa, subordinaram-se real e efetivamente ao domínio da burguesia, tratando-se de noções que, quer se queira, quer não, são um resultado do processo de ascensão e de consolidação desta classe social. Se Marx, em seu Manifesto comunista, voltou-se aos “trabalhadores de todo o mundo”, isto se deu, também, ao deixar clara esta ligação.

 

Os efeitos causados pela Revolução Francesa não se restringiram ao âmbito econômico e político;causaram também modificações drásticas na sociedade francesa da época

 

 

A Copa e o povo

No caso brasileiro, um primeiro aspecto que dificulta muito pensar a nação e o povo nos moldes exatos da Revolução Francesa é, como mostraram, por caminhos distintos, Caio Prado Júnior (1907-1990), Florestan Fernandes (1920-1995) e José Chasin (1937-1998): o Brasil sequer teve uma revolução em tais moldes, em que convergem o desenvolvimento da burguesia, da nação, do povo e o ímpeto revolucionário e transformador. E, na verdade, quando se procura tratar do tema que marcou os últimos meses (a Copa de 2014), isto é de suma importância.
Nossas “revoluções” (a Independência, a República, a Revolução de 1930, por exemplo) foram feitas “pelo alto”, como mostraram, com algumas diferenças, José Chasin e Carlos Nelson Coutinho (1943-2012). Ambos destacam o caráter conservador de nossas “revoluções burguesas”.

 

Nas revoluções burguesas ocorridas no Brasil, o nacional e o popular, de certo modo, conformaram-se não só dissociados;tratar-se-ia, até certo ponto, de um antagonismo.

Em verdade, como mostrou o historiador Jorge Ferreira em seu O imaginário trabalhista, em um momento específico da História do Brasil, houve uma relação intensa entre o nacional e o popular – trata-se de um período marcado pelas lutas dos trabalhadores, momento esse imediatamente anterior à implementação da ditadura militar. O momento normalmente chamado de “populismo” corresponde a uma época em que a identidade nacional, de certo modo, é cindida entre aqueles que buscam um projeto popular e se alinham aos trabalhadores e aqueles que acreditam que deixar aos trabalhadores a hegemonia na configuração de políticas “desenvolvimentistas” seria, na verdade, ceder ao internacionalismo soviético ou, para ser mais preciso, a uma “república sindical”. Trata-se de um período de lutas populares, certamente. Tem-se uma época que conformou a antessala do golpe de 1o de abril de 1964, na medida em que tudo que os grupos que financiaram o governo militar não buscavam era um poder popular – antes, a “doutrina de segurança nacional” voltou-se justamente contra essa “ameaça”, que, acreditavam os militares e seus apoiadores, poderia levar à formação de uma nova Cuba (e isso, para os empresários, seria catastrófico).
Ou seja, o cenário em que ocorre a Copa do Mundo de 1970, que marca decididamente o “futebol arte” e que traz o tri, é aquele em que não há a vitória de um projeto popular – trata-se também de uma Copa em que a repressão cresce exponencialmente devido ao recém-outorgado AI-5 (1968), que dá um viés institucional à arbitrariedade daqueles que Antonio Rago Filho não deixou de chamar de “gestores do capital atrófico”.

 

Seleção de 1970

Politicamente, o “Pra frente Brasil” significa uma identificação forçada entre o “nacional” e as forças que repreenderam e continuavam a repreender qualquer projeto popular. É conhecido o uso político que foi feito da Copa de 1970 pelo governo militar, governo que, de certo modo, consolida parte da História nacional (aquela dos projetos antipopulares, do caminho “pelo alto”), apoiado por uma parcela considerável da burguesia nacional (que, nesse sentido, tem um papel muito distinto da burguesia da Revolução Francesa, por exemplo). Como mostrou Francisco de Oliveira, o governo militar faz do capitalismo brasileiro algo de dependente na medida em que os bens de produção eram produzidos no exterior, fazendo de “nossa” burguesia uma classe associada ao capital estrangeiro. Nesse sentido, sequer sua tônica, como mostraram José Chasin e Antonio Rago Fillho, é estritamente “nacional”. Ao passo que o governo militar apela ao ufanismo e instrumentaliza a Copa de 1970 para fins políticos, nada passa mais longe que um projeto nacional e popular. Coloca-se, então, como alternativa, não uma Copa do povo, mas: ou Copa ou povo.
Este antecedente é essencial para que possamos tratar, mesmo que rapidamente, do ocorrido no último ano e que culmina na Copa de 2014. Isso se dá na medida em que, depois de 1970, as Copas em que o time de futebol brasileiro (quer se queira, quer e não, não o “Brasil”) foi campeão ocorreram depois da “redemocratização” – em 1994 em vias de eleger um presidente (FHC), que fora um dos grandes nomes da oposição institucionalizada à Ditadura; em 2002 com o cenário que daria ensejo à eleição do líder das greves de 1978-79 (Lula), greves estas que, como mostrou José Chasin, foram essenciais para a derrubada do governo militar e da aliança entre as camadas mais retrógradas da burguesia e a tecnocracia instituída pelos militares.

 

Diálogos positivos na sociedade

A Copa de 2014, assim, não podia deixar de trazer consigo certo significado político – e, de certo modo, a tensão entre o nacional e o popular ainda paira no ar. Um primeiro aspecto político a ser ressaltado diz respeito à simbologia presente na medida em que os três chefes de Estado que estariam presentes na final serem mulheres (estavam Angela Merkel e Dilma Rousseff, mas Cristina Kirchner não pôde comparecer). Isso mostra certo avanço quanto à posição da mulher na sociedade. Chama também a atenção, porém, um importante debate sobre a política nacional, pois a presidente do Brasil é uma mulher que lutou contra a ditadura com todas as suas forças e que foi torturada barbaramente. Alguns, como André e Paul Singer, acreditam que pode haver certa mudança importante (mesmo que mais em potência do que em ato) na política nacional com a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao governo federal. Outros, como Paulo Eduardo Arantes, porém, destacam que foi justamente com isso que veio aquilo que parece ser uma “pá de cal” em qualquer projeto nacional-popular não revolucionário (hoje, seria preciso lutar contra o próprio capitalismo). Arantes destaca tal aspecto remetendo às continuidades existentes no tratamento de certas questões da política nacional – destaca o autor que, de certo modo, as lutas populares continuam sendo vistas como “questão de polícia”.
No que toca a Copa de 2014, a questão se apresenta de modo pungente: de junho de 2013 até o presente momento, o cenário nacional foi marcado por protestos, manifestações e movimentos que, grosso modo, colocam-se a favor de um projeto popular. O decisivo para saber o modo como está a política nacional está neste ponto: como lidar com esse fator novo? A velha opção é o uso da polícia. A nova apareceria na medida em que o social tomasse as rédeas da política e do aspecto institucional.

 

Naturalização do machismo

E, mesmo que a Copa seja divulgada como a “Copa do povo”, não é isso, o que mostraram os estádios, em que parecia ser mais difícil achar alguém de baixa renda do que uma agulha em um palheiro. ­Ainda sobre o público: foi assustadora a ausência de negros e pardos. E isso mostra que certa herança (nefasta) ainda é perpetuada, ou ao menos aparece de modo muito forte em um megaevento como o que acaba de ocorrer. A concentração de renda em pouquíssimas camadas da população se mostra clara, mesmo que, cotidianamente, o Brasil possa parecer ser “um país de todos”. Assim, vê-se, sob este aspecto: o caráter popular da noção de povo é deixado de lado na “Copa do povo”; fica, no entanto, o lado vicioso da origem da noção mencionada, aspecto relacionado aos privilégios monetários de algumas camadas (na Revolução Francesa, o voto ainda era censitário). O aspecto mais chocante, porém, se dá na medida em que aquilo que se deu em outros eventos e que foi explanado por autores como Mike Davis, David Harvey e Otília Arantes – a saber, a desapropriação em massa da população carente, projetos higienistas levados a cabo de modo violento e outras medidas que constituem graves violações aos direitos humanos –, ocorreu em larga escala. Se, como destacou ­Francisco de Oliveira, este tipo de ação caracterizou a ditadura militar, talvez seja ainda essencial, como destacam Vladimir ­Safatle e Paulo Arantes, nos ­perguntarmos o que, afinal, ainda resta da ditadura.
Talvez a resposta possa ser elucidada com uma análise cuidadosa desta Copa, em que, como apontou Paulo Arantes, não só a violação de direitos fundamentais foi cotidiana, mas também ocorreram prisões de manifestantes em situações, no mínimo, duvidosas (um dos exemplos é a prisão do militante Fábio Hideki).

 


A relação entre a peculiaridade do Brasil, do nacional e do popular se coloca, pois. E se utilizarmos a noção de “nacional” como apareceu em um primeiro momento (tendo a seu lado “o popular”), o Brasil foi humilhado na copa. Se muitos brasileiros choraram com a derrota do time de futebol, isso se deu também na medida em que, convenientemente, olhavam para o lado errado. Um famoso ex-jogador, em um de seus comentários infelizes, disse que não se faz Copa com hospitais, e, infelizmente, disse a verdade – um evento milionário é feito também para que os milionários continuem como tais, lucrando o máximo. E isso, não é preciso insistir, acentua somente o lado nefasto da sociedade existente, uma sociedade capitalista e ainda marcada por traços daquilo que Florestan Fernandes chamou de capitalismo selvagem. Se no cotidiano o “Brasil” foi humilhado vergonhosamente pela “Alemanha”, isso se dá na medida em que a imagem parece valer mais que os próprios fatos. O que resta do nacionalismo neste ambiente é algo essencialmente manipulatório, sendo necessária, urgentemente, uma análise social da Copa – e, se as festas no final da Idade Média continham em si alguma “carnavalização” na medida em que, como apontou Mikhail Bakhtin (1985-1975), havia certa inversão das hierarquias tradicionais, aqui, deu-se o oposto.
As hierarquias tradicionais, a duras penas, foram reafirmadas e aquilo que há de pior na peculiaridade nacional brasileira parece ter tido sobrevida. Com isso, certamente, o Brasil perde, e continua perdendo.

 

 

*Vitor Bartoletti Sartori é formado em Direito pela USP, mestre em História Social pela PUC, doutor em Filosofia do Direito pela USP. É professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e autor do livro Lukács e a crítica ontológica ao Direito. vitorbsartori@gmail.com

Adaptado do texto “A Copa do povo?”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 98