A arte de materializar o pensamento

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock  | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O artesão pensa em uma asa de anjo. O anjo é barroco, mas sua expressão é contemporânea. Então se aproxima do bloco de madeira, empunha seu formão, aperta as tarraxas da mesa, puxa um lampadário para perto. Com a outra mão ele segura um grosso toco de lápis; rabisca indistintamente sobre o madeiramento do bloco. O artesão, entre um risco e outro, imagina quanto de seu pensamento se materializará em sua arte. Há questões oportunas nas relações entre o que é pensado e  o que é materializado daquilo que é pensado. Clarice Lispector escreveu que: “O homem parecia ter desapontadamente perdido o sentido do que queria anotar. E hesitava, mordia a ponta do lápis como um lavrador embaraçado por ter que transformar o crescimento do trigo em algarismos. De novo revirou o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele não teve o desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva de que, mal escrevesse a primeira, e seria tarde demais. Tão desleal era a potência da mais simples palavra sobre o mais vasto dos pensamentos. Na realidade o pensamento daquele homem era apenas vasto, o que não o tornava muito utilizável. No entanto parece que ele sentia uma curiosa repulsa em concretizá-lo, e até um pouco ofendido como se lhe fizessem proposta dúbia”.

 

Verifique sua historicidade de vida. Quanto do que você imaginou, pensou, refletiu, sonhou se materializou? O que você imaginava ser, estar, acompanhar, vivenciar se efetivou de fato? Eis uma primeira aproximação de mensuração (por aproximação e não por exatidão) dos elementos conceituais que se tornaram materiais, palpáveis, corpóreos.

 

Temos muitas questões. Por exemplo, nem sempre o que é pensado, sentido, percepcionado encontra correspondente no mundo corpóreo, sensorial. Em casos assim, precisa-os pesquisar se a pessoa desiste, se aceita algo que se aproxime do que pensou, se ergue outra construção no lugar da construção pensada. Dostoiévski ilustrou o assunto da seguinte maneira: “É sabido que grupos completos de pensamento atravessam instantaneamente as nossas cabeças, na forma de certos sentimentos, sem tradução para a linguagem humana, menos ainda para uma linguagem literária… Porque muitos dos nossos sentimentos, quando traduzidos numa linguagem simples, parecem completamente sem sentido. Essa é a razão pela qual eles nunca chegam a entrar no mundo, no entanto, todos os têm”.

 

Materializar o pensamento é um aspecto que pode ser importante em nossas vidas. Pensar em uma bela casa de campo, em um lugar para visitar no fim de semana e tornar isso concreto é uma forma de estar no mundo. Mas até onde podemos chegar com isso? Qual o limite? Podemos olhar a lua no céu e dizer: “Ei, lua, pare bem aí!” E ela não se moverá mais no firmamento?

 

Algumas pessoas dão por conclusivo e bom o próprio pensar. Não precisam e não querem ir além disso para qualquer outra coisa. O pensamento, em si mesmo, se basta. Para muitos dos que funcionam desta forma, a materialização do pensamento pode acarretar tristeza e decepção. Buscam viver somente o conceito, alimentam-se disso, não apreciam o tijolo e o cimento, mas a ideia do tijolo e do cimento.

 

Ocorre, em diversos casos, o inverso: a concretude alimenta, nutre o pensamento, e oferece tanto ao pensamento que este pouco tem a fazer.

 

Entre outros motivos, isso pode acontecer pelas confusões que o pensamento, e a palavra que expressa o pensamento, o mundo encontram nos diálogos. Vamos a um exemplo em Merleau-Ponty, de sua obra (muito bonita!) Fenomenologia da percepção: “A palavra não é o signo do pensamento, se compreendermos como tal um fenômeno que anuncia outro, como o fumo anuncia o fogo”. A palavra e o pensamento só admitiriam essa relação exterior se fossem dados tematicamente; na realidade, uma está envolvida no outro, o sentido está preso na palavra, e a palavra é a existência exterior do sentido. O que confere força, intensidade, concretude a um pensamento a ponto de torná-lo algo tão denso quanto uma pedra, um cerâmico do mediterrâneo, um trem com suas tantas toneladas sobre os trilhos? Será que cada vez que mudamos uma ideia de lugar fazemos algo assim?

 

Epicteto, em seu Manual, diz: “O que perturba os homens não são as coisas, e sim as opiniões que eles têm em relação às coisas. A morte, por exemplo, nada tem de terrível, senão ela teria parecido assim a Sócrates. Mas a opinião que reina em relação à morte, eis o que a faz parecer terrível aos nossos olhos. Por conseguinte, quando estivermos embaraçados, perturbados ou penalizados, não o atribuamos a outrem, mas a nós próprios, isto é, às nossas próprias opiniões”. Ou seja… Será que cada vez que mudamos uma ideia de lugar fazemos algo assim?! Na realidade temos feito isso a vida inteira, muitas vezes sem sabermos.

 

É evidente que bem antes disso eu lhe falarei sobre limites, problemas, responsabilidades, correlações. É assim que talvez você compreenda que sua garagem fica melhor sem uma Mercedes-Benz, que ela foi feita para outras coisas, que o caminho é outro, que uma Mercedes-Benz seria um problema. Materializar o que se pensa é parte importante da questão (tomando o número de pessoas como parâmetro), do problema. Consequências, responsabilidades, decorrências são muito importantes.

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia Clínica no Brasil. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Cuiaba e Faculdades Itecne de Cascavel.

luciopackter@uol.com.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed.97