Ética na docência

Por Arthur Meucci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

A minha jornada acadêmica para virar um especialista em Ética na Educação tem se tornado um pouco depressiva. Não tenho encontrado muitos pesquisadores que se dediquem ao tema e que possam dialogar com minhas inquietações e descobertas nesse campo. Começo a questionar os pedagogos que criticam as condutas dos professores do ensino fundamental e médio, pois não entendem como se constroem as relações de valores em sala de aula.

 

Durante as pesquisas bibliográficas para a minha tese de doutorado, constatei que o campo acadêmico da Educação brasileira, nas últimas duas décadas, apresentou poucas pesquisas objetivas e qualitativas sobre as questões éticas que ocorrem em sala de aula. Encontrei um levantamento feito pela pesquisadora Deborah Alves, apresentado no IX ANPED Sul, em 2012, provando que esse tema é pouco investigado no campo acadêmico brasileiro. Após fazer um levantamento dos trabalhos sobre Ética na Educação publicados entre 2001 e 2011, ela constatou que há uma média de 46 trabalhos na área de Ética para cada mil trabalhos nas demais áreas da Educação. O material levantado pela pesquisadora revela que somente 13,3% dos trabalhos sobre Ética abordam o papel da docência – menos de 0,5% da produção total de pesquisas em Educação – e que a maioria dos trabalhos no campo da Ética tratam de teorias pedagógicas e políticas educacionais.

 

A educação como objeto da Filosofia

 

Depois de me deparar com a precariedade quantitativa de trabalhos sobre os valores de conduta na relação ensino-aprendizagem, ­decidi investigar como os pesquisadores conduziram suas investigações sobre a construção dos valores na sala de aula. Todos os trabalhos que consegui levantar sobre o tema eram teóricos, sem pesquisa de campo. Isso significa que as discussões nos livros, artigos, congressos e cursos de Educação sobre as condutas dos professores, quando ocorrem, não tomam como base o que realmente acontece na sala de aula. São discussões teóricas que geralmente analisam filmes ou estatísticas sobre violência e “fracasso” escolar. Os desafios e as angústias que os professores enfrentam no exercício cotidiano da profissão são ignorados, e outros dilemas menos relevantes são postos para ilustrar os debates teóricos propostos pelos autores.

 

Eu tenho acompanhado em minhas pesquisas o cotidiano dos professores e alunos nas escolas estaduais da cidade de São Paulo. Compareço às aulas, converso com os alunos, coordenadores, diretores e pais no intuito de entender o que realmente acontece na sala de aula. Até o momento, consegui recolher material suficiente para questionar alguns preconceitos acadêmicos sobre os problemas enfrentados pelos educadores na condução de suas disciplinas.
O primeiro grande equívoco que aprendi no meu curso de licenciatura na Faculdade de Educação foi atribuir à formação dos professores os problemas de comportamento dos alunos e o baixo desempenho nas avaliações nacionais. Muitos acadêmicos afirmam que os educadores mal preparados e que não dominam plenamente os assuntos ministrados em suas ­matérias geram aulas desinteressantes, pobres de conteúdo, que propiciam os chamados processos de indisciplina.

 

A Filosofia nas escolas públicas

 

Em minhas pesquisas, constatei que muitos professores formados em boas universidades, com título de mestre e aprovados em concurso não conseguem transmitir seus conhecimentos para os alunos. Também encontrei professores com uma formação ruim, sem domínio pleno da norma-padrão da língua portuguesa, ministrando aulas simples com total participação e empatia da sala. Eu vi professores dedicados e idealistas serem desrespeitados pelos alunos, como também vi profissionais desmotivados e faltosos gozarem de boa estima. Provavelmente o leitor se lembrará de algum professor doutor, respeitado no meio acadêmico, que ministrava aulas ruins e desinteressantes na faculdade – e outros não tão brilhantes que despertaram-lhe paixões sobre os temas que ensinavam.

 

Outro problema que muitos pedagogos apontam nos professores é a falta de um planejamento de aula ou de curso.

 

No mundo ideal e elitista que os doutores em Educação construíram, os planos de aula garantem uma maior eficiência no processo de ensino-aprendizagem. Porém, no mundo real das escolas públicas e privadas de baixo custo, esse tema é delicado. Atualmente as salas de aula do ensino médio em São Paulo contam com muitas particularidades que não são levadas em consideração: em cada classe os professores lidam com alunos com problemas físicos e mentais. Além disso, em média quatro alunos por sala não sabem ler nem escrever – sem falar nos analfabetos funcionais. Eu acompanho um professor de inglês que, em uma sala do segundo ano do ensino médio, tenta, no calor do momento, adaptar sua aula para alunos que não têm domínio do idioma materno e para alunos surdos (ou seja, não o ouvem), ao mesmo tempo em que tenta acalmar um aluno com síndrome de Down que não consegue interagir em sala de aula. É possível pensar em um plano de aula que dê conta destas variáveis? Os coordenadores ou a Secretaria da Educação lhe oferecem o devido suporte? Não. Com todos os problemas e sem um plano de aula, o seu curso é um sucesso. Não é possível pensar em um plano de aula que realmente funcione. Prevalece o jogo de cintura e a resiliência do docente.

 

Criar discursos moralizantes criticando os professores é fácil. Difícil é sair da caverna acadêmica e encarar a realidade que os professores enfrentam.

 

 

*Arthur Meucci é mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e história da Cultura pelo Mackenzie e membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor conferencista da ECA/USP e do curso de Ética e Meio Ambiente do PEC/FGV-SP e consultor do Espaço Ética.
www.meucci.com.br

Adaptado do texto “Ética na docência: idealismos e realidades”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 98