A dualidade divina II

Por Flávio Ricardo Vassoler* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Além de haver uma gradação entre o que é sumamente bom (Deus) e o que é bom (a criação), há a possibilidade de corrupção – a tradição católico-protestante tende a chamá-la de pecado original ou queda em vinculação com o livre-arbítrio. A tradição reencarnacionista a chamaria de liberdade. Tal corrupção, se apreendida de modo dialético, permite que homens e mulheres se distanciem de Deus para que trilhem suas próprias trajetórias divinas – lembremo-nos do Vós sois deuses reiterado por Cristo. Do contrário, homens e mulheres seriam meros apêndices de Deus, vale dizer, robôs sem qualquer discernimento, autômatos sem qualquer liberdade.

 

O que é absolutamente bom, para Agostinho, é incorruptível. O que é bom pode se corromper, mas, nota bene, o que é bom só pode se corromper porque tem algo de bom em si. Se houvesse algo absolutamente mau, não poderia haver corrupção – ou melhor, o movimento da corrupção –, porque o mal teria existência por si só. É assim que Agostinho estabelece uma profunda reconfiguração em relação ao entendimento do mal: “[…] Todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. […] Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir [grifos de Agostinho]. […] Todas as coisas que existem são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem [grifo meu]. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e, nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper”.

 

Tudo o que existe tem substância, vale dizer, tudo que existe provém da substância divina, que, segundo Agostinho, é absolutamente boa. A criação é boa, isto é, tem algo de bom, mas sua corrupção – movimento que, dialeticamente, chamamos de liberdade – pressupõe o distanciamento do que é bom. Ocorre que, para Agostinho, o mal é que não tem substância. Com uma manobra sumamente astuciosa, Agostinho ­distancia Deus do mal do mundo, ou melhor, Deus não é o criador do mal, Deus é o criador de substâncias boas que, em seu movimento de perfectibilidade, podem se tornar sumamente boas. Vós sois ­deuses. O que é mal, por sua vez, não o é. O mal, segundo Agostinho, não existe em si, como substância – do contrário, o mal proviria de Deus, o que é impossível, uma vez que, novamente segundo Agostinho, Deus é sumamente bom. O mal, então, consiste no movimento de corrupção daquilo que, originalmente, era bom. Ou, para darmos um passo adiante e ao lado de Agostinho, o mal consiste na corrupção e no distanciamento momentâneos do bem.

 

A dualidade divina

 

A gradação agostiniana entre o que é bom (a criação) e o que é sumamente bom (Deus) nos apresenta a vida humana – segundo Kardec e a tradição reencarnacionista, as vidas humanas – como a travessia rumo à divindade. O mal consistiria, dialeticamente, no movimento do mal rumo ao que é bom. Assim, Agostinho pode lançar as bases para a compreensão de Deus em relação à criação como um movimento rumo à totalidade do que é bom: “Em absoluto, o mal não existe nem para Vós nem para as vossas criaturas, pois nenhuma coisa há fora de Vós que se revolte ou que desmanche a ordem que lhe estabelecestes. Mas porque, em algumas de suas partes, certos elementos não se harmonizam com os outros, são considerados maus [grifos meus]. Mas estes se coadunam com outros, e por isso são bons (no conjunto) e bons em si mesmos [grifo do autor]. Todos estes elementos que não concordam mutuamente concordam na parte inferior da criação a que chamamos Terra, cujo céu acastelado de nuvens e batido pelos ventos quadra bem com ela. […] Os elementos superiores são incontestavelmente mais perfeitos que os inferiores. Mas um juízo mais sensato fazia-me compreender que a criação em conjunto valia mais que os elementos superiores tomados isoladamente [grifos meus]. […] Reconheci que cada coisa se adapta perfeitamente não só ao seu lugar, mas também chega a seu tempo”.

 

Em algumas de suas partes, certos elementos não se harmonizam com os outros: o pensamento de Agostinho, que seria profundamente desdobrado pelo espiritismo, no século XIX, não proferiu um amém unívoco ao sistema teológico – e à sociedade estamental e desigual que dava guarida à Igreja e que dela buscava legitimação. Ainda que tenha transvalorado o mal, o outrora mundano Agostinho de Hipona conhecia as recalcitrâncias da criação suficientemente bem para não decretar que a partir da reconfiguração teológica ocorreria, imediatamente, a transformação da Cidade dos Homens na Cidade de Deus. Agostinho diria: a bondade de Deus não estará satisfeita enquanto houver uma clivagem entre os elementos superiores e os inferiores. Por isso, prossegue Agostinho, a caridade faz que o conjunto da criação tenha mais valia do que os elementos superiores tomados isoladamente. E Allan Kardec arremataria: assim como não existe um inferno eterno antes do e após o Juízo Final, não pode haver um céu de regozijo apartado do sofrimento de todos aqueles que ainda não conseguiram perfazer a travessia rumo à divindade, pois cada um chega a seu tempo.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 104

Adaptado do texto “A dualidade divina II”

*Flávio Ricardo Vassoler é escritor, professor universitário e autor de Tiro de misericórdia (Editora nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos, 2013) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios, 2012). Doutorando em Teoria Literária pela FFLCH-USP. O artigo, na íntegra e sem edições, está no blog Portal Heráclito http://www.portalheraclito.com.br.