Problema como base de estudo da Filosofia

A fixação do problema como eixo do estudo filosófico

Por Mario Ariel González Porta* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A valoração que existe da filosofia entre os não filósofos é, por regra geral, negativa e tende a assumir duas formas típicas:

a) Para quem têm um contato superficial com esta disciplina, a impressão de um certo caos parece inevitável. A filosofia é vista então, como âmbito do capricho e arbitrariedade, podendo cada um opinar o que quiser.

b) Para outros, que por diferentes razões já têm tentado um contato regular com a disciplina, a filosofia tem fama de difícil e obscura, quando não, de absolutamente incompreensível.

 

As raízes dos pontos de vista negativos

Estou convicto de que ambas visões da filosofia são falsas. Porém, o que me interessa agora não é refutá-las, mas entender de onde elas derivam. Pois bem, curiosamente, as duas visões negativas da filosofia, ainda que diferentes e, incluso, até opostas, tem uma raiz comum. Elas derivam de passar por alto o lugar central que ocupa o problema, ou melhor, a construção do problema, no “modo filosófico de pensar” e, em consequência, o rol decisivo que ele deve jogar para entender o que os filósofos fazem. Vejamos como isto se evidencia em cada uma das visões mencionadas:

 

a) A filosofia como caos

A filosofia não consiste em um caos de pontos de vista incomensuráveis, filosofar não é simplesmente opinar. Ora, se o público em geral não percebe o que os filósofos de fato fazem e crê que cada um simplesmente diz o que quer, isso se deve, em grande medida, ao fato de que não toma consciência da existência de um problema que o filósofo está tentando solucionar. O núcleo essencial da filosofia não é constituído de meras convicções, mas de problemas e soluções. A existência de um problema é uma condição mínima do que chamamos “discurso filosófico”. Quando não há problema, tampouco há filosofia. É esse o dado que, ao faltar, produz a impressão de arbitrariedade. Se passarmos por alto o seu originário caráter de solução, então o que o filósofo diz vira um “mero dizer”, um “irresponsável afirmar” e o devir filosófico se torna uma simples sucessão de opiniões cuja característica essencial é o não poder decidir quem tem razão. Mas, como regra geral, em filosofia não se contrapõe simplesmente uma opinião a outra. O característico é a explicitação dos supostos não só da tese da filosofia anterior, quanto do seu próprio problema que termina conduzindo, não poucas vezes, à reformulação deste último. A consideração do problema permite ver na história do pensamento filosófico que, a princípio, parecia pura descontinuidade, uma unidade dinâmica interna e, inclusive, uma certa direcionalidade.

 

b) A filosofia como incompreensível

Passemos ao seguinte ponto: a filosofia não tem só fama de caótica, senão de incompreensível. Mas, porquê? Grande parte das dificuldades para compreender a filosofia como tal (ou um filósofo ou uma obra particular) se devem ao fato de não perceber que estes versam sobre problemas e, em consequência, que é impossível entendê-los se não se entendem os problemas dos quais eles tratam. Se passamos por alto a fixação do problema do qual a filosofia (ou, repito, um filósofo ou uma obra) se ocupa, passamos por alto também, assim mesmo, que o que ele está dizendo é a sua solução a esse problema. Em suma: entender um autor é ser capaz de ver a sua filosofia como solução do seu problema. Entretanto, “o problema” tende a ser ignorado, sem se dedicar esforço específico algum para esclarecê-lo. Não poucas vezes, no lugar da sua explicitação aparece um clichê ou rótulo vazio (“o ser e o devir”, etc.). Assim, obviamente, não pode surpreender que o discurso filosófico seja incompreensível.

 

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Adaptado do texto “Mapa de ideias”

*Prof. Dr. Mario Ariel González Porta é Titular de Lógica e Teoria do conhecimento da Pontifícia universidade católica de São Paulo (PUC-SP) e Líder do Grupo de Pesquisa CNPq “Origens da filosofia contemporânea”.