Entenda o que é trabalho imaterial

Uma análise sobre as transformações que levaram o capitalismo atual a reformular o seu modo de produção

Por André Campos de Camargo* e Raphael Guazzelli Valerio** | Adaptação web Caroline Svitras

Por volta de 1970, tem-se aquilo que se convencionou chamar de reestruturação produtiva. Em linhas gerais, do que se trata? Primeiramente aquilo que historiadores e cientistas sociais chamam de terceira revolução industrial, caracterizada pelo uso massivo dos computadores, redes informáticas, além de avanços na área de biotecnologia. Esta ocorreu a partir dos anos 1970. Atualmente – isto é, nas primeiras décadas do século XXI – apareceu no vocabulário de administradores, empresários e engenheiros ligados à área informatizada, o termo quarta revolução industrial que, segundo eles, estaria baseada no uso de sistemas físicos cibernéticos, os “CPS”. O que temos aqui é uma maior integração entre máquina e homem, assim como uma maior autonomia dada à primeira devido aos avanços das pesquisas em inteligência artificial. Caracterizada também por uma maior integração entre produção e consumo, na quarta revolução temos mercados cada vez mais especializados em determinados perfis de consumidores que, em troca, participam da produção, dando à mercadoria contorno e profundidade.

 

Tanto na terceira quanto na quarta revoluções estamos diante de um novo período de organização social do trabalho, do sujeito produtivo e de suas relações com a economia e a política; ou seja, uma nova tecnologia social de controle e organização dos corpos e das subjetividades. Sinteticamente, este novo período é caracterizado pelos conceitos de “operário social, “indivíduo-empresa” e “trabalho imaterial”, abordado por, entre outros, Mauricio Lazzarato e Antonio Negri.

 

A ideia de indivíduo-empresa aparece na obra do filósofo francês Michel Foucault

O nascimento da biopolítica. Nela Foucault demonstra como o neoliberalismo, seja de matriz estadunidense, seja alemã ou austríaca, muito mais do que uma teoria econômica simplesmente, foi produtor de um novo ethos, quer dizer, um modo de vida todo baseado no modelo de concorrência empresarial. Em meio à dissolução do Estado de Bem-Estar Social e suas características – pleno emprego, assistência social, forte intervenção do Estado na economia, etc. –, o novo liberalismo propõe um sujeito empresa. Este novo sujeito produtivo deve se esforçar para desenvolver em si aquilo que o Nobel de economia de 1979, Theodore Schultz (1902-1998), chamou de capital humano que, ao nosso ver, está na base deste neoliberalismo. Competências, habilidades e flexibilidade são algumas das características do novo ­sujeito produtivo, no mesmo instante em que as fronteiras entre mercado de trabalho e mercado de consumo tendem a se apagar.

 

 

As teses de Foucault foram essenciais nas produções teóricas recentes de Negri e Lazzarato, em especial na ideia de trabalho imaterial. Negri e outros teóricos militantes participaram, entre os anos 1950 e 1970, de um movimento conhecido como “operaísmo italiano”. Parece-nos que o encontro entre aquilo que Negri produziu, a partir de uma leitura neo-marxiana da noção de trabalho, e os conceitos foucaultianos de “empresariamento de si”, “biopolítica” e “sociedade disciplinar”, entre outros, resultam nestas novas formulações para não só compreender a produção e o trabalho no capitalismo contemporâneo, mas também a ação e resistência dos trabalhadores. Na gênese destas novas conceituações nos deparamos com uma dicotomia abordada pelos operaístas: operário massa versus operário social. O que era o operário massa? Foi uma figura característica dos anos de produção fordista e taylorista. Este operário era duplamente massificado. Primeiro na produção, sua força de trabalho era mobilizada para uma única tarefa na linha de montagem – ou seja, havia um nivelamento de suas qualidades: sua subjetividade era nivelada e esvaziada pela organização da produção. Segundo, nos órgãos responsáveis pela organização e resistência da classe trabalhadora: o partido e o sindicato. A esquerda insistia na ideia de vanguarda proletária e cobrava os operários por sua falta de consciência política. Por volta dos anos 1970, insistimos, temos aquilo que foi chamado de reestruturação produtiva. Aparece aqui uma dualidade no mundo do trabalho: os trabalhadores tradicionais da produção, aqueles empregados das fábricas e protegidos pela legislação trabalhista; e os novos trabalhadores terceirizados e do setor de serviços, cuja organização, em duplo sentido – isto é, tanto do ponto de vista do capital, quanto das reivindicações trabalhistas –, era descentralizada. Não gozavam de proteção jurídica.

 

Para dar conta desta nova realidade, o operaísmo criou o termo operário social. Nele estão presentes novas lutas sociais, dos estudantes, dos trabalhadores precários, das mulheres, dos desempregados; bem como em novas áreas que não se restringiam à política salarial: moradia, serviços públicos, cultura, etc. O que aparece aqui é uma recusa à dicotomia entre setores produtivos – o operário tradicional – e os setores improdutivos – isto é, os terceirizados, os trabalhadores dos serviços, os desempregados, etc. Importante notar que o capital não negava esta dualidade, em verdade fazia dela um novo instrumento de comando e subordinação. Neste sentido o operário social “articulava a centralidade produtiva de figuras sociais cujas dimensões produtivas não dependiam mais da inserção na relação salarial central”.

 

Proudhon procurava manter-se próximo às iniciativas do proletariado, pois acreditava na autonomia máxima da classe operária.

É a partir destas análises que surge a noção de trabalho imaterial. Em linhas gerais, do que se trata? Nele temos uma “derrota” do trabalhador fordista ou t­aylorista. Há uma espécie de retorno àquilo que Marx chamou de trabalho vivo. É um trabalho cada vez mais intelectualizado, o trabalhador não é mais um autômato, mas, pelo contrário, deve ser capaz de tomar decisões. Como nos diz Laz­zarato e Negri, é agora a “alma” do trabalhador que desce à fábrica, é sua personalidade, criatividade – numa palavra, sua subjetividade – que é explorada. Para os italianos, tanto a quantidade quanto a qualidade de trabalho foram reorganizadas em torno da imaterialidade; ou seja, no trabalho operário de tipo novo temos um investimento na subjetividade, no controle, na gestão da informação e nas capacidades de gerência e decisão. Quer dizer, o trabalho hoje é uma atividade composta e ligada à subjetividade, não apenas do trabalhador em particular, mas da força de trabalho tomada em seu conjunto. Na sociedade pós-fordista, portanto, temos o seguinte quadro: o trabalho tende a se tornar trabalho imaterial, e a força de trabalho tende à intelectualidade de massa (o General Intellect de Marx). Daqui um novo ciclo de resistência, o General Intellect pode, segundo os autores, transformar-se em sujeito autônomo, tanto da perspectiva social, quanto da política.

 

Para finalizar este sobrevoo na produção pós-fordista, permita-nos introduzir aqui a noção de “multidão”. Este conceito foi criado, com clara herança evidente em Espinosa (1632-1677) e Dante (1265-1321), por Negri e seu ex-aluno e colaborador Michael Hardt em duas obras principalmente, Império (2000) e Multidão (2004). Com este novo ciclo produtivo, a definição do sujeito revolucionário como sendo o trabalhador tradicional da indústria, parece perder o sentido. Do mesmo modo, seus órgãos representantes, o sindicato e o partido, perdem legitimidade. Há um novo ciclo de lutas que não se restringe a determinada classe social. No capitalismo contemporâneo todos são explorados e, como vimos, a dicotomia entre produtivo e improdutivo, tempo de trabalho e tempo de lazer, caem por terra. A subjetividade é a nova fonte de riqueza a ser explorada, e é neste sentido que Negri e Hardt lançam a proposta da Multidão como novo sujeito revolucionário; ela não é representável, foge das ideias de massa, povo, vanguarda proletária, entre outras. Daí sua potência para um novo ciclo de lutas que agora começamos a enxergar.

 

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Fotos: Filosofia Ciência & Vida Ed. 120

Adaptado do texto “Técnica e tecnologia social”

*André Campos de Camargo é licenciado em História (Frea) e mestre em Filosofia da Educação (Unicamp). Pesquisa a obra de Felix Guattari  e suas relações com as instituições modernas e contemporâneas, em especial as educativas. Contato: camargo.andre.campos@gmail.com.

**Raphael Guazzelli Valerio é licenciado em História (Frea), mestre em Ética e Filosofia Política (Unesp) e doutorando em Filosofia da Educação (Unesp). Pesquisa os desdobramentos do conceito de biopolítica na formação humana, em especial na obra de Giorgio Agamben. Contato: guazzellivalerio@gmail.com.